07 abril, 2016

PEQUENO ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

Pieter Bruegel, O Velho | A Parábola dos Cegos, 1568

Não sigo aquele princípio hermenêutico segundo o qual é possível conhecer melhor um autor do que ele se conheceu a si próprio. Daí não ter a veleidade de conseguir compreender a fundo o que ousou dizer Samuel Johnson com «I never desire to converse with a man who has writen more than he has read». É verdade que a frase é clarinha como água, o que lá está é o que lá está e apenas isso. O meu problema é compreender, no século XXI, o que está a acontecer na cabeça de uma pessoa do século XVIII que escreve tal coisa, uma vez que ler e escrever no século XVIII não é o mesmo que ler e escrever no século XXI.

O que creio poder saber, é que aparecesse Samuel Johnson no século XXI, arriscar-se-ia a ficar calado. Nunca tanto se escreveu como no século XXI e através de tantos canais de comunicação, incluindo os mais chilreantes. Toda a gente escreve, até mesmo este blogger de triste figura. O problema de Johnson seria dar de caras com um tempo em que se escreve demais e se lê de menos. É verdade que, partindo do princípio que se alguém escreve é porque é lido, então, se se escreve muito, também se lê muito. Lê-se, portanto, muito e cada vez mais porque também se escreve cada vez mais. Isso, todavia, não resolve o problema de Johnson, pois quem lê, lê apenas o que escrevem pessoas que não lêem ou que também apenas lêem o que escrevem as outras pessoas que não lêem. O que talvez, e digo talvez pois não sigo aquele princípio segundo o qual é possível conhecer melhor um autor do que ele se conheceu a si próprio, levasse Johnson a concluir que numa época em que se publicam tantos e cada vez mais livros, incluindo os escritos por pessoas que não lêem, se devesse aproveitar para ler mais e escrever menos, evitando assim o claustrofóbico, concentracionário e distópico processo de, num circuito fechado, as pessoas que escrevem lerem apenas o que escrevem pessoas que não lêem. Cegos conduzindo cegos, diria Johnson do mesmo modo que, antes dele, Bruegel o fez com tintas e pincéis, arrisco eu dizer, apesar de não seguir o princípio segundo o qual é possível conhecer melhor um autor do que ele se conheceu a si próprio, embora nesse aspecto tenha a minha vida alegre e airosamente facilitada por viver num tempo em que não há nada para compreender uma vez que nada há para ser compreendido.