03 abril, 2016

PARÁBOLA DOMINICAL

Stanley Kubrick |The Shining [fotograma]

Ainda que algo desarrumada, costumo ter a casa razoavelmente limpa. Enfim, o habitual: chão aspirado, madeiras sem grandes vestígios de pó, cozinha e casa de banho com uma aceitável dignidade. Hoje, porém, durante uma simples e dominical limpeza de rotina, fui inexplicavelmente possuído por uma espécie de daimon socrático mas de cariz higiénico, arrastando-me para uma terrível escalada de limpeza, sobretudo na cozinha, como nunca acontecera antes. Armado com o CIF mais um pacote daqueles toalhetes húmidos com lixívia, ataquei implacavelmente tudo o que via e não via mas fiz questão de passar a ver: cantos dos rodapés dos armários, as saliências formadas pelas almofadas das suas portas, as partes exteriores interiores e exteriores das gavetas, juntas dos azulejos, os cantos e recantos mais recônditos do frigorífico, incluindo a borracha na parte superior da porta, o forno, botões da placa do fogão retirados para limpar a superfície escondida por eles, com uma minúcia de psicopata esfreguei todas as saliências do escorredor da louça e até com uma faca esfreguei todas as ranhuras do espremedor de laranjas que uso diariamente para fazer o sumo do pequeno-almoço. Quanto mais procurava mais encontrava, até que cheguei a um ponto em que tive de dar um murro na minha consciência e parar com esta quase bíblica sanha purificadora. Percebi, com dramática lucidez, que se quisermos procurar sujidade iremos sempre encontrá-la, seja à nossa frente, seja nos lugares mais inobserváveis de um labirinto sem princípio nem fim. A partir daqui há duas vias bem distintas: viver em busca de uma sujidade que nunca terá fim, ou viver de modo a aceitá-la embora sem permitir que nos esmague. É caso para lembrar o célebre aforismo 146 de Para Além do Bem e do Mal: «Quem luta com monstros deve ver se, ao fazê-lo, não se torna também um monstro. E quando olhas durante muito tempo para um abismo, também o abismo olha para dentro de ti». E nunca esquecer que, por muito árduo que sejam certos momentos e exijam a nossa atenção e vigilância, tudo na vida deve ter o seu domingo para podermos repousar.