04 abril, 2016

PANSEXUALIDADE

Philippine Schaefer

Deveras assustador este artigo do Público sobre as novas tendências da identidade sexual. Onde se fala, por exemplo, de um casal inglês que não revelou a ninguém o sexo do filho até este fazer 5 anos para não condicionar a sua identidade sexual em função de preconceitos e estereótipos sociais. Ou no «fosso do corredor azul e rosa», isto é, do problema de haver brinquedos para menina e brinquedos para menino ou até da ideia segundo a qual não se deve falar em buracos, antes orifícios, para evitar medos e desconfortos em relação ao corpo.

Problemas cuja gravidade e complexidade é inegável mas não insuperável. Talvez a via mais interessante, e absolutamente inclusiva, para superar estas dificuldades, seja a da pansexualidade. Mas a verdadeira, a genuína. Dei conta dela já faz tempo, por mero acaso, ao consultar a página da Wikipédia sobre a cineasta Raquel Freire, onde se informa ser a realizadora assumidamente pansexual. Entusiasmado com a versatilidade antropológica, ecológica e até metafísica do conceito, fui logo explorar o assunto mas rapidamente me desiludi com a sua redutora estreiteza. É verdade que uma pessoa pansexual é mais livre e vai mais longe do que a bissexual, ainda limitada por um opressivo esquema sexual binário, isto é, só gosta de homens e de mulheres, o que é manifestamente pobre e algo conservador. Já a pessoa pansexual não se contenta com uma monótona atracção por dois sexos apenas mas por todo o espectro sexual; homossexuais, heterossexuais, bissexuais, transgéneros e intersexos. A minha desilusão, confesso, é de certo modo romântica. Ao descobrir o conceito de pansexualidade, juro que pensei logo numa sexualidade espinosista, um panteísmo sexual, uma sexualidade telúrica, intimamente vinculada à blood-consciousness do D.H.Lawrence, uma perfeita e absoluta comunhão com a natureza, entre o corpo e os elementos primordiais da terra. Esta, sim, é a genuína, a verdadeira pansexualidade, que faz de toda a natureza um imenso objecto de desejo sexual, levando-nos a comungar sexualmente com tudo o que mexe e não mexe, ultrapassando assim as limitações da tradicional, pequeno-burguesa e reaccionária pansexualidade, apenas focada num miserável leque de cinco identidades sexuais, mais coisa menos coisa.

Quando eu era criança gostava muito de jogar ao berlinde no recreio da escola. Lembro-me de, a dada altura, passar a olhar com outros olhos para os buracos feitos na terra, perdão, para os orifícios, começando a sentir uns calores e uns tremores no corpo, esquecendo o berlinde para me concentrar apenas nos orifícios. Agora que penso nisso, creio poder dizer que já se trataria de uma minha pulsão pansenxual, um ígneo desejo de penetrar nas intimidades da terra. E na Primavera, tanto que eu gostava de meter umas ervinhas na boca e sentir o sabor da sua agreste seiva. E na praia, depois de uma bela banhoca, sentir por baixo uma rocha bem polida e quentinha, sendo afagado por cima pelo calor do Sol num verdadeiro ménage à trois cósmico. E por que razão, nunca, mas mesmo nunca, me canso de ir ali às grutas de Santo António, Alvados e Mira de Aire? Só pode ser explicado pela primitiva sensação de me deixar engolir pela própria Terra que tão amorosamente me acolhe no seu escuro e húmido silêncio. Isto, sim, é a verdadeira pansexualidade, E esta ligação entre o sexo e a natureza não é assim tão espúria quanto possa parecer. Os exemplos poderiam ser mais que muitos na história da literatura mas basta pensar no modo como Aristófanes, na sua famosa peça Lísistrata, substitui o verbo binein (fornicar) por vindimar, sachar, escavar, colher o figo, espremer a uva para com ela fazer bagaço. Em vez de dizer «dar um beijo», diz «entrelaçar o cesto». Os seios de uma dançarina nua são comparados a rábanos. Em A Paz, o mesmo Aristófanes faz chamar ao órgão masculino o grão de bico, o prego, o touro; os testículos são as folhas da figueira com dois frutos. A genitalia feminina, por sua vez, é a andorinha, o ouriço do mar, a cozinha, chamando orvalho e sumo às suas secreções. A cineasta que me perdoe a franqueza mas isto, sim, é a verdadeira pansexualidade, a fazer lembrar os belos cenários renascentistas e barrocos que tão bem exploram o clássico e paradisíaco universo de sátiros e ninfas em absoluta comunhão mística com a natureza em honra do deus Diónisos, com vinho vermelho, qual sangue da terra, escorrendo pelos queixos durante inebriantes cânticos e danças.

Percebe-se pois que seja este o caminho a defender por todos aqueles que vivem obcecados com a sensível questão da identidade sexual e da exclusão. Mais inclusivo do que isto é impossível. Deixa de haver homens e mulheres, heterossexuais, homossexuais, bissexuais e tudo o mais, seres humanos e animais, seres animados e animados, sexualidade humana e vegetal. Tudo isso acaba. Como nas Metamorfoses de Ovídio, tudo muda, tudo se transforma em tudo, tudo se associa, tudo casa com tudo, tudo está em tudo sem excepções. Chegou pois o momento de desenvolver, por decreto-lei, claro, como tanto gostam os amantes da liberdade sexual, uma verdadeira educação para a pansexualidade, a qual marque o fim de todas as diferenças, de todas as hierarquias, de todas as subjugações e exlusões, enfim, de todas as identidades mórbidas e castradoras.


Rita Lino