05 abril, 2016

O VÉU DA IGNORÂNCIA

Dorothea Lange | Egipto, 1962

Volta e meia somos confrontados com o problema do vestuário, devido às diferenças entre a cultura ocidental e a muçulmana. Desta vez, por causa das hospedeiras da Air France serem obrigadas a usar véu e roupas largas, em Teerão. Para uns, será um sinal de respeito por uma cultura diferente. Outros vêem nisso uma humilhante cedência, contrapondo o facto de, na Europa, as muçulmanas serem livres de se vestir de acordo com a sua cultura. Logo, se uma mulher europeia é obrigada a usar véu em Teerão, uma muçulmana deverá tirá-lo em Londres, Paris ou Roma. Vou pedir ajuda a um filósofo inglês do século XVII chamado John Locke que, sob anonimato, escreve a sua famosa Carta sobre a Tolerância, num tempo em que católicos e protestantes se viam entre si como, em Raqqa ou Mossul, um fanático do DAESH vê um cristão. Nessa carta, joga com a noção de «coisa indiferente», de cujo contexto me desvio (ele fala de igrejas e seus diferentes rituais, eu de culturas) mas não da sua essência, e à qual recorro em busca de alguma luz para este problema. 

Em cada cultura há coisas indiferentes e outras que não o são. Cães, gatos, porcos, vacas, borregos são animais. Em Portugal é indiferente comer vaca, porco ou borrego mas repugnante a ideia de comer cão ou gato. E, havendo inúmeros matadouros onde os primeiros são diariamente mortos, será julgado criminalmente quem mate cães ou gatos. Não por serem menos animais do que os outros, ou seja, não se trata de um critério racional e objectivo, mas apenas porque isso fere a nossa sensibilidade cultural devido à relação afectiva que temos com eles. No Irão será indiferente comer vaca ou borrego. Mas já não o será comer porco, igualmente por razões culturais, neste caso, religiosas. Há sítios em África onde uma mulher pode ocupar o espaço público com o peito coberto ou descoberto. É indiferente. Já em Portugal é inaceitável a segunda situação, excepto na praia. Não é, pois, uma coisa indiferente. Se, em Portugal, uma dessas mulheres africanas for para a rua com o peito descoberto, será advertida pelas pessoas ou pela polícia. Ora, a mesma dualidade existe quando se pensa no papel do véu e do vestuário feminino na cultura ocidental ou na esmagadora maioria dos países muçulmanos. Em França, é indiferente uma mulher andar vestida desta ou daquela maneira, de cabeça descoberta, com gorro, boina, boné, chapéu, um lenço a cobrir a cabeça, ter o cabelo preto, vermelho lilás ou mesmo rapado. Já no Irão não é indiferente. Neste sentido, deve aceitar-se que, no Irão, uma mulher francesa possa ser obrigada a cobrir a cabeça pela mesma razão que, em França, uma mulher africana possa ser obrigada a cobrir o peito, não servindo o argumento de que na sua aldeia o faz. 

Mas há que separar o trigo do joio, não metendo tudo no mesmo saco. Neste sentido, terei que dar razão a quem defende que os países ocidentais, sob a bonita capa do multiculturalismo, vão longe de mais na aceitação de valores que chocam a nossa sensibilidade. Repito: não aceitamos que a mulher africana ande na rua de peito descoberto porque fere o nosso pudor. Repito: não aceitamos que matem cães ou gatos porque fere a nossa sensibilidade. Ora, se nos países ocidentais são inaceitáveis práticas de discriminação de género, práticas que revelem uma posição subalterna da mulher face ao homem, por que razão devemos aceitá-lo só porque isso é normal noutra cultura? Cobrir a cabeça com um véu é uma imposição religiosa mas não anula a individualidade e dignidade da mulher. Ainda hoje, em Portugal, em certas zonas rurais, ao contrário dos viúvos, as viúvas cobrem a cabeça com um lenço. Discriminação? Talvez, mas dentro de limites razoáveis. Todavia, obrigar uma mulher a tapar o rosto será na nossa cultura uma forma abominável de discriminação e subjugação do mesmo modo que seria ver uma mulher andar na rua presa por uma trela. O grau de espectacularidade é diferente mas o princípio que lhe subjaz é o mesmo. O rosto é uma marca fundamental da nossa identidade e personalidade, é através do rosto que assumimos grande parte da nossa individualidade perante os outros, é através do rosto que vemos e somos vistos sem qualquer medo ou vergonha, é através do rosto que exprimimos as nossas emoções. Mostrar o rosto é uma afirmação da nossa liberdade, personalidade e individualidade no espaço público. Não por acaso existem expressões como «Não ter vergonha de dar a cara», «aparecer de cara lavada», «poder andar na rua de cabeça erguida», «dar de caras com alguém». É por isso chocante, para nós, ocidentais, que o rosto possa ser assumido publicamente por um homem no espaço público mas não por uma mulher. Aceito, pois, a proibição de prática tão repugnante nos países ocidentais, sendo condição necessária para poderem cá viver.

Em suma, não devemos julgar todas as práticas culturais como um todo mas perceber cada situação individualmente pelo seu menor ou maior grau de indiferença em função dos nossos valores culturais, que devem ser defendidos e protegidos de tudo o que os possa ameaçar. Continuar a insistir na questão do véu das europeias em países muçulmanos ou no véu das muçulmanas nos países ocidentais, no quadro de um abstracto choque de culturas, não passa de um tremendo erro.