01 abril, 2016

CULPAS SOLTEIRAS E CASADAS

Carl Dreyer | O Dia da Ira

Eu tive um professor de Filosofia Medieval, o padre Cerqueira, que, perante uma sala de gente maioritariamente esquerdista, ateia e com fortes sintomas alérgicos a tudo o que fosse pólen católico, dizia, com um sorriso irónico no rosto, que era mais fácil encontrar uma Bíblia na mesinha de cabeceira de um protestante do que na de um católico. Gostava de voltar atrás no tempo para entender melhor o que quereria dizer ele com isso mas não pude deixar de pensar nisso depois de ter visto seguidos (por mero acaso) dois filmes «protestantes»: A Fonte da Virgem, de Ingmar Bergman e O Dia da Ira, de Carl Dreyer (uma obra-prima que, estupidamente, nunca tinha visto e que entrou direitinho na minha lista dos melhores filmes).

Basta conhecer a origem e evolução da Reforma nas duas diferentes formas para compreender o seu maior fundamentalismo face à chocante superficialidade e degenerescência católica de então. Mas nada melhor que a história da arte, da pintura à literatura passando pelo cinema, para melhor entrarmos numa alma protestante, sendo estes dois filmes disso um bom exemplo. Claro que a «culpa» não é propriedade privada dos protestantes. A «culpa» é antes de mais uma questão humana, podendo ser entendida tanto num quadro antropológico como num quadro psicológico ou psicanalítico. Daí o cinema ou a literatura universal estarem repletos de histórias onde a questão da culpa tem um valor central. Mas também é verdade que não existe propriamente um cinema católico do mesmo modo que existe um «cinema protestante», que, por isso, lhe dá um sentido e envolvimento completamente diferentes. Deixa de ser uma problema apenas humano ou psicológico, para passar a ser um sobretudo um problema protestante, assumido por realizadores vinculados a uma forte identidade cultural.

A Fonte da Virgem é um filme de 1960 passado numa sueca Idade Média. O Dia da Ira é um filme de 1943 cuja acção decorre no século XVII, na Dinamarca. Dir-se-á que tudo isso é história, e que, com toda a pertinência, em países protestantes como a Suécia, Dinamarca ou Holanda, faz-se sentir hoje muito menos o peso da religião no quotidiano dos seus habitantes do que em países como Portugal, Espanha ou Itália. Claro que esse menor peso deveu-se inicialmente a questões de natureza teológica as quais fazem com que hoje não exista nesses países, para além da complexa identidade romana da Igreja Católica,  o culto dos santos, procissões, festividades populares em honra de certas figuras, o culto mariano. Ou a própria confissão com o objectivo de redimir a pessoa dos seus pecados, por vezes tão facilmente despachados com três Pais Nossos e dois Avés Marias. Mas talvez seja interessante perceber o putativo impacto da interiorização cultural da culpa na alma protestante no quotidiano desses países, reflectindo-se tanto nas questões mais importantes da vida política como nos mais insignificantes gestos do dia-a-dia, ao invés do que acontece em países católicos, onde há uma relação mais tortuosa com a culpa e onde tantas vezes morre solteira. 

Ao contrário do que dizia o meu professor de Filosofia Medieval, se calhar não vai ser fácil encontrar um dinamarquês ou um sueco com uma Bíblia na sua mesinha de cabeceira. Mas que importância têm isso? O que mais conta não é o que está ou deixa de estar na mesa de cabeceira mas o que se transmite e aprende ainda que já nem se saiba bem de onde vem e porquê.