02 abril, 2016

A ÁRVORE DE PASCAL


Uta Barth | Sem Título, 1979-82

- Eu sou um merda!- Gritara Paulo, sem largar o meu rosto.
- Merda sou eu! - Gritara o Tiago. 
- Merda sou eu! - Insistira Paulo.
- Sabe o que eu sou? Um fracasso. Pronto.
- Merda sou eu!
- Eu sou um merda fracassado. Sou mais merda que você.
Paulo largara meu rosto e agarrara a cabeça de Tiago.
- Eu sou mais merda do que vocês todos!
- Porquê?
- Porque eu era melhor do que vocês todos. Eu era o melhor de todos! Para vocês chegarem a merda, não precisou muito. Eu, sim, tive que cair. Eu é que sou mais merda. Luís Fernando Veríssimo, O Clube dos Anjos

A vaidade e a humildade surgem habitualmente como sentimentos opostos. A primeira, revelando uma pessoa que vive com um espelho numa mão e um megafone na outra, chamando a atenção sobre si. Já a humildade e a modéstia parecem mostrar uma espécie de descentração do sujeito ou pelo menos uma discreta presença de si no mundo, desejando apagar a luz dos holofotes que sobre ela podem incidir. Todavia, parece haver também no excesso de humildade ou de modéstia uma valorização de si próprio e uma auto-centração que se aproximam da vaidade e do orgulho, embora por via da negação. No excerto de O Clube dos Anjos acima apresentado, ao querer cada um dos três amigos assumir uma menor importância face aos outros, acabam quase paradoxalmente por dar uma excessiva importância a si próprios.

O §397 dos Pensamentos, de Pascal, caminha na mesma direcção: «A grandeza do homem é grande porque ele se reconhece miserável. Uma árvore não se reconhece miserável. É portanto ser miserável reconhecer-se miserável; mas é ser-se grande reconhecer que se é miserável», indo ao encontro do que aqui me traz. Apenas para evitar confusões e não por considerar que as palavras estejam necessariamente erradas, vale a pena procurar uma palavra alternativa a humildade e modéstia. Eu gosto muito da palavra inglesa «self-effacing». Por exemplo, Isaiah Berlin usa-a para caracterizar o escritor russo Turgueniev, em contraste com Tolstoi e Dostoievski. Por que é Turgueniev self-effaced, tanto enquanto homem como escritor? Pelo seu espírito auto-crítico, por não querer comprometer o leitor com o seu ponto de vista, por não pregar, desejar converter, nunca assumir uma posição demasiado assertiva face às coisas que, aliás, levou-o a ser acusado de «escapismo» face ao mundo. Turgueniev não era propriamente humilde e modesto no sentido habitual, apenas alguém que não dá especial importância a si mesmo e às suas ideias ou que não se impõe demasiado ao mundo, ainda que por via de uma «negação de si» cujos casos mais extremos remetem para uma penitência e humilhação, sendo a religião um campo fértil no que a isso diz respeito. 

Parece-me que «auto-desprendimento» pode ser uma boa tradução de «self-effacing». Ao contrário da humildade e da modéstia, que impõem uma assertiva e activa negação de si mesmo, o auto-desprendimento caracteriza-se por deixar de presumir o olhar e juízos alheios. Pensemos em Robinson Crusoe. Ele pode ficar contente ou feliz com os seus feitos na ilha, ou até mesmo orgulhoso, dizendo alegremente e em voz alta: «-Fogo, como fui capaz de fazer isto?!». Mas sem a presença de outros não há lugar para qualquer tipo de vaidade ou humildade. Ninguém sozinho é vaidoso ou humilde. Uma pessoa sozinha, como Robinson, faz o que tem a fazer, sem ter de se levar demasiado a sério ou demasiado a brincar. Nem sequer precisa de se desmistificar pois não há lugar para mistificações como no caso dos três amigos brasileiros. Nós respiramos sem repararmos nisso. O auto-desprendimento, volta e meia, será fazer, pensar, dizer, viver com a mesma naturalidade e espontaneidade de quem respira. Já tanto o vaidoso como o humilde, ainda que por caminhos distintos, estão demasiado concentrados na sua respiração. Ao contrário da árvore de Pascal, que apenas respira.