14 março, 2016

VÁ LÁ PARA FORA CÁ DE DENTRO

Alain Tanner, Dans la Ville Blanche [fotograma]

Não há povos superiores nem povos inferiores mas há povos que gostam de se pôr a jeito para que tal se considere. Por exemplo, os portugueses. Uma velha tradição nossa é defender que em Portugal se deveria fazer isto ou aquilo com base no argumento de que se faz no estrangeiro. O argumento é fraco pois não se baseia no facto de ser bom o que se faz no estrangeiro mas apenas que se faz. Se se faz, é bom, logo devemos também passar a fazer, se já não se faz ou nunca se fez é porque é mau, logo devemos também deixar de o fazer. Ora, se isto não é maneira de nos menosprezar-nos vou ali e já venho.

Veja-se esta entrevista com o escritor José Rentes de Carvalho onde a páginas tantas compara Portugal e Holanda. Goza o escritor com a tara dos portugueses face aos carros de luxo. Mas fá-lo comparando com os holandeses que, apesar de bem mais ricos, preferem carros utilitários (para já não falar nas bicicletas). Depois, critica os portugueses por não prescindirem do almoço. Como não poderia deixar ser, cai de imediato na tentação de nos comparar com os holandeses, cujo almoço são duas fatias de pão comidas à pressa, muito à americana, já agora, acrescento eu. 

Estes exemplos servem-me às mil maravilhas para mostrar onde quero chegar. Concordo com a ideia da obsessão do tuga pelo carro, considerando também mais sensato o modo como o holandês olha para o seu meio de transporte. Sei, todavia, que almoçar sentadinho e calmamente de garfo e faca faz bem mais sentido do que comer duas fatias de pão à pressa,  não sendo certamente por isso que a Holanda é um país rico e nós esta coisa que sabemos, apesar do nosso parque automóvel que enche de vanglória as ruas e estradas da nação. Ao almoço ficamos nós a ganhar e se amanhã estiver com um holandês elogiarei o seu povo pela bicicleta ou pelo Opel Corsa mas cantarei de galo por não usufruírem de uma boa refeição entre dois turnos no trabalho.

Uma coisa não é boa só porque se faz no estrangeiro ou má porque não se faz. O que faz os holandeses ou dinamarqueses não é intrinsecamente bom só porque são eles a fazê-lo, do mesmo modo que o fazem ou deixam de fazer os portugueses não é intrinsecamente mau só porque somos nós a fazê-lo. Cada situação tem de ser vista em função da sua maior ou menor legitimidade ou sensatez. Basta, pois, desta auto-mutilação como desporto nacional dos portugueses: olhemos para os outros como exemplo, se for caso disso, mas sabendo também olhar para nós como exemplo a ser seguido por outros, sem quaisquer complexos.