18 março, 2016

UMA TERRA SEM AMAS

Crianças e amas em Central Park, 1909

Pelo que se pode aqui ver, parece que o grande sonho já não é o de uma terra sem amos mas o de uma terra sem amas, embora sem amas não haja amos, tal como não há marido sem mulher ou mulher sem marido. A fotografia de Ipanema só é problema devido ao impacto semiótico, e alimentado ideologicamente, de ver lado a lado, em diferentes posições, ama e amos. Convém, todavia, não ficarmos pelas aparências. O momento-chave que levanta o véu do problema dos amos e da ama é esta frase: "A representação da ama negra ou mestiça vestida de branco é uma forma de marcar uma diferença. É a forma de distinguir que essa mulher que acompanha o casal, ou a mãe, não é igual a eles". Quer dizer, o problema racial dá lugar ao problema revolucionário e igualitário do branco do uniforme da «mulher», que a demarca socialmente, mas apresenta-se a situação criando a ilusão de se tratar de uma questão racial, certamente mais pacífica, consensual e ideologicamente transversal.

Se entramos numa fábrica somos capazes de distinguir os operários dos administradores. Os operários vestem-se como operários, os administradores como administradores. Também numa grande propriedade agrícola, facilmente distinguimos os trabalhadores-rurais dos senhores engenheiros ou do dono. Ora, nunca vi ninguém se manifestar, e presumo que no Brasil também não, contra o facto de operários e administradores se vestirem de maneira diferente. Ou causar pruridos o facto de num prédio cujos moradores usam as melhores roupas, ver um porteiro à entrada com o seu uniforme. E quem diz um prédio diz um hotel. Ou os empregados de mesa de um restaurante mais carote, cujo uniforme os demarca claramente dos clientes. Dir-se-á que aqui se trata de ser uma mulher preta, a cor de pele mais associada a este tipo de trabalho subalterno, denunciando uma injusta discriminação numa mesma sociedade, estando brancos de um lado, pretos do outro. Porém, trata-se de um trabalho tão subalterno como o de um operário ou camponês branco. E se é verdade que as classes baixas podem ascender socialmente, as profissões menos valorizadas socialmente são eternamente protagonizadas por pessoas dessas classes. Quantos filhos de médicos, advogados, engenheiros, arquitectos, gestores ou administradores são operários ou camponeses? Qual o problema, portanto, de haver amas pretas? Muito mais do que uma questão racial é uma questão social perfeitamente normal. 

O problema é bem outro. Está no facto de esta ama, vestida de branco, tão próxima dos amos e dos filhos dos amos, que ganha um ordenado acima da média, estar num registo oposto ao da massa operária. A esquerda que não gosta da democracia liberal e continua a sonhar com a revolução, precisa da grande massa proletarizada e desvalida, esta sim, verdadeiramente discriminada, para poder dar origem a uma consciência de classe enquanto motor de acção revolucionária ou formas de luta que desestabilizem a democracia alimentada pelo grande capital. Aquela ama, pelo contrário, está contaminada pela proximidade dos seus amos, sendo o seu imaculado uniforme branco um símbolo do seu conservadorismo. Enquanto o operário sujo, humilhado e ofendido, se dilui na massa colectiva, aquela ama subsiste individualmente numa casa confortável, protegendo mesmo os impuros filhos dos impuros ricos. Será subalterna mas sem consciência de classe. Ou melhor, a sua proximidade com os amos fá-la identificar-se com eles, tomá-los como modelos, referências, aprendendo, ao contrário do operário, a falar correctamente, a estar à mesa, a gostar de bens impuros, a importar os seus valores e, por isso, em vez de sonhar com a revolução que cria um mundo onde todos serão igualmente pobres, como aconteceu em todas as modernas experiências revolucionárias, sonhará com um mundo onde pode vir a ser rica. Branco mais branco do que o desta ama preta não há. E já na revolução soviética, em oposição ao vermelho, o branco não era cor bonita de se ver.