23 março, 2016

POEIRA COMO NÓS

August Sander

Por motivos óbvios, não se deve ser juiz em causa própria. Quando se trata de julgar ou avaliar, a imparcialidade é uma condição fundamental. Daí um dirigente desportivo não poder arbitrar um jogo do seu clube ou um magistrado julgar um familiar próximo. Ora, os impulsos antropocêntricos do ser humano padecem de uma clara falta de imparcialidade. Como levar a sério a bíblica consideração de que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, vindo isto de seres humanos? Ou que a alma humana tem uma estrutura trinitária que reproduz a trindade divina, sendo Agostinho de Hipona, um homem? Como levar a sério o orgulho humanista que atribui ao ser humano uma posição privilegiada no universo?

Este egocentrismo filosófico lembra aquelas crianças de 4 anos que explicam a existência da noite pelo facto de terem que ir para a cama dormir. Daí a vetusta perspicácia de Xenófanes de Cólofon ao dizer que os mortais imaginam que os deuses foram gerados e que têm vestuário e fala e corpos iguais aos seus (Clemente de Alexandria, Stromateis, Fragmento 14). Mas mais interessante é quando compara os seres humanos aos animais. Diz ele que se os bois e os cavalos e os leões tivessem mãos e fossem capazes de, tal como os homens, representar os seus deuses, desenhariam bois, cavalos e leões em vez de figuras antropomórficas. Ao antropomorfizar os deuses, os seres humanos elevam-se a si mesmos pois criam uma familiaridade entre ambos que deixa de fora as outras espécies. A ideia de Xenófanes é que esse processo resulta de uma falta de imparcialidade e do facto de sermos a única espécie com capacidade de representar deuses. Mas o facto de termos essa capacidade não significa que os deuses sejam como nós os representamos. Sonhar também não significa considerar verdadeiros os conteúdos dos nossos sonhos, tal como pensarmos numa coisa não significa que seja real.

Estava eu a lavar a loiça do almoço quando dou por mim a pensar como olharia a natureza para todas as suas criaturas se, agora de repente, ganhasse consciência, inteligência, sentimentos, emoções. Será que iria gostar mais dos seres humanos do que de um animal ou de uma árvore? Ou achá-los mais importantes e superiores. Se sim, porquê? Por serem mais inteligentes e racionais do que os outros? Mas não aconteceria o mesmo que acontece com os pais que têm vários filhos, sendo uns mais inteligentes, tendo estudado mais ou tendo uma carreira mais prestigiada do que os outros? Porventura um pai gosta mais de um filho ou acha-o mais importante do que os irmãos só porque tirou um curso de engenharia civil e consegue construir grandes obras enquanto os outros têm profissões mais simples e humildes?  Claro que não, e se assim for é um pai perverso e frívolo. Não me choca pensar que a natureza sentisse orgulho e uma admiração especial pelos seres humanos, por aquilo que realizaram ao longo dos séculos e que mais nenhuma espécie poderia conseguir: grandes obras, invenções, sistemas jurídicos e filosóficos, teorias científicas, avanços técnicos, grandes obras de arte, formas de organização social e política. Mas isso não significa que olhasse para os outros animais e para as árvores e os visse como menos seus. O homem pode fazer coisas mais importantes, mas isso não faz de nós mais importantes. Não somos nem mais nem menos do que os outros, apenas diferentes. Nascemos, comemos, bebemos, defecamos, respiramos, reproduzimo-nos e morremos como os outros. E, tal como eles, não passamos de insignificante poeira perdida na escura e infinita imensidão do espaço cósmico.