15 março, 2016

O TEMPO, ESSE GRANDE ARQUITECTO


Desde o «Call me Ismael» ao «Aujourd'hui, maman est morte», há romances cujos inícios são inesquecíveis e inconfundíveis. Mas talvez o mais conhecido seja mesmo o que diz que todas as famílias felizes são iguais mas as infelizes são-no cada uma à sua maneira. Mas não é para falar de literatura que fui buscar a frase à estante. É por causa desta fotografia do Mosteiro dos Jerónimos em ruínas, no século XIX. A minha visão dos Jerónimos em ruínas é ambígua. Por um lado, sinto grande desconsolo perante cenário tão desolador mas, por outro, não posso deixar de ficar fascinado com a força romântica da sua natural destruição. O desconsolo deve-se ao facto de tê-lo sempre visto tal como existe hoje. Na minha consciência, a identidade física do mosteiro é a que me foi sempre dada. Daí a estranheza e desconforto de o ver em ruínas. É como ver uma pessoa 40 anos depois, bastante alterada fisicamente. A nossa memória vê uma pessoa mas os nossos olhos mostram outra. Eis a razão por que não sinto o mesmo desconsolo perante as ruínas do convento do Carmo, o Coliseu de Roma, um anfiteatro grego ou uma abadia inglesa docemente invadida pela vegetação e pelo musgo. Porque foi assim que sempre os vi, tendo agora até dificuldade em imaginá-los intactos. E porventura alguém, exceptuando o curioso historiador, deseja imaginar a Abadia no Carvalhal, de Caspar David Friederich, inteira? Não, é assim que nós a queremos porque foi assim que nasceu e assim ficou para a eternidade.

Isto faz-me pensar como seria a minha relação com o mosteiro dos Jerónimos se tivesse permanecido no estado em que aqui o vemos, em comparação com o que vejo hoje após restauro. Sem querer retirar o seu valor artístico, arquitectónico ou patrimonial, confesso que no mosteiro já vi o que tinha para ver. Uma construção que obedece a um padrão, a um modelo, a um estilo, que podemos igualmente encontrar em monumentos afins. O românico será sempre românico, o gótico sempre gótico, o manuelino ou o barroco sempre manuelino ou barroco. Tal como as famílias felizes: iguais. E as ruínas? Quem é o seu arquitecto, qual o seu padrão, o seu modelo, o seu estilo? O seu arquitecto é o tempo. E a sua arte é a arte do vento, do frio, do calor, da humidade, dos elementos a sobreporem-se poeticamente à superior ciência e técnica do seres humanos, ou até mesmo a implacável fúria da Terra, como aconteceu em 1755. Uma ruína será sempre um edifício triste, melancólico, infeliz. Mas cá está: cada ruína é infeliz à sua maneira pois sendo a natureza cega e inefável a sua poesia, nunca podemos saber o resultado. Vários mosteiros manuelinos podem seguir um padrão. Mas cada ruína é única, irrepetível, como únicos e irrepetíveis são os acasos que lembram a contingente fragilidade de todas as coisas. Daí o encanto das ruínas, pela imaginação que suscita, pelo silêncio que nelas se ouve. Não o silêncio monástico de entre paredes, mas um atávico e cosmogónico silêncio, que faz tudo submergir ao trágico poder do tempo, incluindo a nossa condição finita e mortal.