30 março, 2016

O RISO DE SILENO

Cima da Conegliano | Sátiros, c.1505-10

O momento mais dramático de um filme tão claustrofóbico como O Ovo da Serpente, é ver um desesperado padre pedir a sua redenção a uma artista de bordel que vai em busca da sua. Mais do que dramático, surge como aquele elevado momento da lucidez trágica que torna irrisórios todos os pensamentos e acções dos seres humanos. Recuando agora, e bastante, no espaço e no tempo, vamos encontrar Lazarilho de Tormes como aquela que será porventura a mais representativa obra da literatura picaresca espanhola dos séculos XVI e XVII. Já na segunda parte da obra, Lázaro, o nosso pícaro herói, ou melhor, anti-herói, embarca a caminho do norte de África para combater os mouros. Entretanto, é apanhado por uma tempestade a qual é descrita da seguinte maneira:

«A terra desapareceu dos nossos olhos e o mar embraveceu com um vento contrário que levantava as velas até às nuvens; a tempestade crescia e a esperança minguava; os marinheiros e os pilotos desenganaram-nos. Os gemidos e os choros eram tão vivos que mais parecia estarmos em sermão da Paixão. Com o grande burburinho não se ouviam as ordens do comandante; corriam uns para um lado, corriam uns para o outro. Andávamos malucos. Todos se confessavam à pressa a quem estava mais perto e houve um que se confessou a uma rameira, e ela deu-lhe a absolvição tão bem como se exercesse há cem anos o ofício».

Tal como na música, onde tanto podemos ouvir uma marcha fúnebre como uma marcha nupcial, um Adagio como um Presto, e cujos impactos estético e psicológicos são completamente distintos, também o objectivo do realizador sueco com o seu filme nada tem que ver com o do espanhol que escreveu o Lazarilho. O primeiro quer chocar, impressionar, dar murros no estômago, enlanguescer os ânimos optimistas do ser humano; o segundo, pelo contrário, foi escrito para converter a dor em riso e tornar burlescos os mais dramáticos registos da vida humana. Neste caso, se doer o estômago não é por causa de murros mas de tanto rir. 

Dizia Marx, em O 18 de Brumário de Luis Bonaparte, que a história se repete, primeiro como tragédia, depois como comédia. Olhando para o filme e para o livro vemos uma coisa diferente: o mesmo acontecimento poder ser em simultâneo tragédia e comédia sem necessitar de qualquer tempo de espera, dependendo apenas da percepção que se tem da realidade. Talvez isto ajude a explicar por que razão Sileno, fiel seguidor do deus Diónisos era ao mesmo tempo o mais bêbedo e lúcido de todos os sátiros.