17 março, 2016

NO REINO DAS SOMBRAS

Erich Hartmann | Sombras encontrando-se nas escadas, NY, 1979

Mais do que lamentável, é verdadeiramente vergonhoso este espectáculo que revela o lado mais sórdido da natureza humana. Aqueles holandeses são criaturas miseráveis, vis, abjectas, que apanham seres humanos indefesos com a mesma naturalidade com que aranhas caçam moscas. Mas, passada a indignação, consubstanciada na raiva dos dois espanhóis que ali passam, cujas palavras faço minhas, devemos, como diria Espinosa, olhar para as afecções e apetites humanos como se tratasse de linhas, de superfícies ou de volumes.

O que ali temos não passa de um contrato. Um contrato tácito, não escrito, mas um contrato. Um contrato entre duas partes livres do qual ambas saem beneficiadas: uma que humilha porque precisa de humilhar, outra que é humilhada porque precisa de ser humilhada. Salvaguardando os diferentes níveis de dramatismo, o que ali vemos é da mesma ordem deste contrato entre Armin Meiwes e Bernd Brandes, quando em 2001 o primeiro comeu o segundo em registo gourmet, do contrato entre uma prostituta e o seu cliente, do contrato entre duas pessoas numa relação sadomasoquista ou dos milhares de contratos entre pessoas comuns, seja no trabalho, seja em relações pessoais, em que pelas mais variadas razões, e livremente, isto é, entre seres racionais dotados de livre-arbítrio, umas humilham e outras são humilhadas.

Ao contrário de Espinosa, também uma vítima das afecções e apetites de holandeses, o que me traz aqui não é a natureza das afecções e apetites humanos mas apenas lembrar o carácter eminentemente político desta vergonhosa cena numa praça madrilena, enquanto contrato. Qualquer contrato entre pessoas livres contém a sua própria racionalidade e o mesmo se passa nesta situação onde o que é real não parece coincidir com o que é racional. Mas coincide, por muito que nos custe aceitar. Uma racionalidade submergida na parte mais escura e sombria do ser humano mas plena de sentido para ambas as partes, em virtude do que podem ganhar. Claro que a moral não conta aqui para nada. Mas também não era por acaso que um dos passatempos favoritos de Espinosa era assistir a combates entre aranhas as quais de moral nada percebem. Talvez com elas se aprenda um pouco mais sobre o ser humano e a vida na pólis.