24 março, 2016

FAMOSOS E POPULARES


Alfredo Cunha, Lisboa, 1975

Faz todo o sentido este puxão de orelhas e os exemplos apresentados são certeiros e bastante elucidativos. Só que enquanto Aires Almeida aborda a questão apenas de um ponto de vista ontológico ou gramatical, a palavra «popular» merece-me um maior destaque pelo que de socialmente envolve no mundo actual. De facto, é frequente ouvir ou ler em órgãos de comunicação social «populares» isto ou «populares» aquilo. Ora, de onde surgirá tal categoria? 

O espaço público é cada vez mais protagonizado por «figuras públicas» e «famosos», venham eles da política, da televisão, do espectáculo, das artes. Trata-se de pessoas que se destacam por estarem associadas a um espaço específico e com uma função facilmente identificada: um programa, telenovelas, a Assembleia da República, o desporto, um palco, um reality show ou apenas porque aparecem, são vistas e respiram publicamente numa revista. Já os «populares» são todos aqueles que surgem acidentalmente numa notícia que expira em segundos, relegando as suas voláteis personagens para o anonimato do qual por mero acaso (normalmente dramas ou «tragédias», termo igualmente idolatrado pelos jornalistas) saíram.

Todas elas são pessoas mas não pessoas iguais. Tal como na antigas pólis grega em que havia os «cidadãos» e os «outros», agora, num mundo virtual que ganhou vida própria, vamos encontrar «figuras públicas, famosos» e os «populares». Podia ser tentado a recorrer à etimologia para associar «popular» a «povo», aos mais pobres, às pessoas no nível mais baixo da pirâmide social. Fazê-lo seria apenas parcialmente correcto. Correcto, porque ninguém imagina a reportagem de um acidente na Quinta da Marinha, onde a intervenção de alguns dos seus residentes, mesmo anónimos, iria merecer o epíteto de «populares». Na esmagadora maioria dos casos os populares são efectivamente pessoas humildes ou perto disso. Só que no espaço virtual a que me refiro existe uma espécie de aristocracia que não depende apenas do dinheiro de um estatuto social «natural». Um tipo pobre que fica famoso graças a um reality show, a uma canção, ao futebol ou por saber dizer umas piadolas em público, deixa imediatamente de ser «popular» para passar a ser «figura pública», «famoso», fazendo parte, por inerência, da aristocracia virtual.

Em A Genealogia da Moral, explica Nietzsche que na velha Grécia, os aristocratas, os nobres, para além de ser os melhores (aríston em grego significa melhor), e ao contrário da gente vulgar, consideram-se «esthlos», os verídicos, «um indivíduo que é», que possui realidade. Ora, é precisamente isto que hoje separa «figuras públicas» e «populares». Os primeiros existem substancialmente, têm densidade social e ontológica, enquanto os segundos, existem acidentalmente, e aparecem, mesmo falando para um microfone, apenas para dar um envolvimento mais dramático à notícia que logo se esfuma. Os novos nobres, tal como os antigos de que fala Nietzsche, continuam a afirmar-se pela aventura, a caça, a guerra, a dança, os jogos. A diferença é que a sua génese e legitimação deixou de ser apenas social ou pelo nascimento, o sangue, para passar a ser pela natureza espontânea do mundo virtual.