28 março, 2016

ENTRADAS SEM SAÍDA

Postal alemão, 1902

Anteontem fui almoçar fora com a minha filha. Quando veio a conta, vejo que se esqueceram de incluir as entradas. Fechei-me em copas e lá vim todo contente por este raro momento de sorte caído em cima da mesa como pingo de mel na língua. Tratando-se de um acto mais estúpido e infantil do que imoral, não tendo matado ou ferido alguém, fosse física ou moralmente, e dele não tendo tirado grande proveito à custa de um grave prejuízo de outrem, a esta hora já deveria estar arrumado na gaveta moral da minha consciência. Mas aí é que está! É precisamente pela sua estupidez e infantilidade que devo tentar percebê-lo no meio de tanta tralha que por lá se encontra.

Assaltar um banco, roubar um livro numa livraria, tirar a carteira do bolso de alguém no metro, são actos imorais mas não são actos estúpidos ou infantis. Quem o faz, sabe bem por que o faz e o que beneficia com eles. Até se pode considerar, por isso, serem actos de grande esperteza. E o mesmo pode acontecer com um homicídio, com o acto de raptar raparigas na Síria para as ter como escravas sexuais ou até fazer-se explodir perto de um parque infantil em Lahore. São actos moralmente abomináveis mas que de estupidez nada têm se pensarmos nas suas possíveis vantagens (materiais, físicas ou psicológicas) para pessoas sem qualquer tipo de pruridos morais. Mas que ganhei eu por nada ter dito ao empregado, e não pagar o que seria justo pagar, de acordo com o (tácito) contrato estabelecido entre mim e o dono do restaurante no momento em que me sento numa das suas mesas para almoçar? Não foi por trinta moedas de prata como as de Judas que traí os meus princípios morais mas por meia pataca. Dois dias depois não sinto que tenha ganho ou deixado de perder alguma coisa por tão irrisória quantia que se confunde com a irrisória gorjeta que deixei.

Esta minha bagatela fez-me então lembrar o tempo em que Santo Agostinho ainda não era santo mas um jovem dado à parvoíce como facilmente se depreende no episódio recordado nas Confissões em que, aos dezasseis anos, roubou umas pêras na árvore do vizinho. Pêras que tinha em abundância na sua própria casa e que logo deitou, com desprezo, aos porcos. Ou seja, tal como eu, também nada ganhou com o seu pecadilho. Não quero com isto comparar-me ao bispo de Hipona. Primeiro, porque nunca serei santo, depois, porque uma coisa é roubar pêras ao vizinho quando se é um fedelho, outra coisa o meu infantil contentamento quando já tenho idade para ter juízo. Mas há uma coisa que une os nossos actos: o prazer do ilícito e uma certa sensação de omnipotência, ainda que gratuita. Não se trata aqui tanto de uma banalidade do mal mas do mal da banalidade, a aceitação de um mal que, pela sua natureza simples, infantil, inócua, arrisca-se a ser aceite sem grandes filtros morais.

Agostinho tornou-se santo e quanto a mim estou certo de que não me irei tornar um daqueles perigosos criminosos que começaram com pequenas picuinhices a feijões para depois chegarem à fase dos gratos actos. Enfim, que começam por fumar um cigarrito ou outro, só por graça, para acabarem a fumar dois maços por dia. Tenho a perfeita noção da linha que separa uma simples e espontânea parvoíce de uma grave imoralidade. Mas, mais do que no grau, importa pensar na natureza da acção. E quer-me parecer que o acontece com as mais graves acções é o que acontece com as pequenas. Dizia Emmanuel Levinas que a ética é a impugnação da minha espontaneidade pela presença do outro. O meu mal à mesa do restaurante foi não ter impugnado o meu espontâneo prazer, dando-me uma voluptuosa sensação de liberdade e de alegre arbitrariedade. Mas o que se passa com alguém que, tendo igualmente como eu a consciência do mal, desde um administrador que destrói a sua empresa ou um político que lesa o Estado, a alguém que assalta uma casa, um violador ou um carteirista no metro, será essa mesma sensação de infantil espontaneidade que, ao contrário de Agostinho, assim como, felizmente, da esmagadora maioria das pessoas que não são santas, não é vencida ou sequer refreada. Neste caso, a banalidade do mal e o mal da banalidade, confundem-se mesmo, e fumar dois maços por dia em adulto e um cigarrito no despertar da adolescência, são mesmo as duas faces de uma moeda. Que pode começar por ser de meia pataca nas entradas de um restaurante.