27 março, 2016

DOMINGO DE PÁSCOA


Heinrich Kühn, 1912-15

Podiam algumas centenas de milhares de seres humanos amontoados naquele pequeno espaço mutilar a terra sobre a qual se juntavam, podiam esmagar o solo com blocos de pedra para que nada germinasse, podiam arrancar as ervas que começavam a nascer, podiam encher a atmosfera com o fumo do petróleo e do carvão, podiam derrubar as árvores, afugentar os animais, amedrontar as aves, mas a Primavera, mesmo na cidade, seria sempre a Primavera”.

Tolstoi começa assim o romance «Ressurreição», louvando a cíclica generosidade da Primavera. Não é por acaso que a Páscoa ocorre na Primavera. O mais importante da Páscoa não é a crucificação de Cristo mas a sua ressurreição. É por isso que a Páscoa é mais bonita do que o Natal. Numa altura do ano em que a natureza está meio adormecida, o Natal celebra o nascimento de alguém que vai um dia morrer, enquanto a Páscoa celebra a morte de alguém que vai renascer, vindo mesmo a calhar ser na Primavera. Estando a natureza ausente e indisponível, o Inverno puxa para a interioridade. A neve, o nevoeiro, a neblina, a chuva, a ausência do sol, formam uma burqa que, como numa mulher muçulmana, faz a natureza esquecer-se de si própria e afastá-la dos olhares humanos. Cristo sofrendo na cruz também lembra a severa austeridade do Inverno. Compreende-se bem porquê. Nos momentos de dor, o mundo deixa de existir. Quem é fustigado pela dor física deixa de olhar para o mundo para olhar apenas para si próprio, concentrando-se os sentidos nos movimentos internos do seu sofrimento. Para quem sofre não há calor nem frio, a beleza da música é transformada em ruído, a exuberância dos aromas é esmagada pelo peso da dor. Para quem sofre só existe o «si» diluído na sua própria dor.

A ressurreição de Cristo não significa outra coisa senão um processo de alguém que morreu para a ilusão da individualidade para ressurgir conciliado com a totalidade da vida. Com a sua morte na cruz enquanto homem, deixou de ter um corpo, uma voz, uma subjectividade delimitada pelas fronteiras materiais do espaço e do tempo, para se tornar ele próprio num Deus. Deus que nunca terá deixado de ser mas que era facilmente iludido pelos contornos humanos do corpo e de uma identidade comum ao comum de mortais como Marcos, Lucas, Mateus ou João. Ainda não consegui compreender o fascínio de alguns cientistas pela descoberta do verdadeiro rosto de Cristo. Parece não perceberem que descobrir o verdadeiro rosto de Cristo, significa matar Cristo outra vez, remetendo-o novamente para os domínios da temporalidade e de uma vulgar identidade genética. A sua ressurreição representa o início da Primavera após uma crucificação em pleno Inverno. E a Primavera é de todas as estações aquela onde a exuberância sinfónica da natureza mais se faz sentir, ao rebentar todo o seu esplendor dionisíaco que supera a finita individualidade de cada ser. Na Primavera, a individualidade de cada ser, seja de uma planta, de um insecto, do sol, do mar, de uma criança, é radicalmente anulada por uma espécie de orquestra onde a parte só faz sentido em função do todo, de unidade primordial, de unidade cósmica, de harmonia universal que funde numa mesma dimensão o uno e o múltiplo, em que a orquestra se sobrepõe à soma de todos os instrumentos.

A Primavera representa, assim, para cada indivíduo, o esquecimento de si, a sua dissolução enquanto indivíduo, para se ganhar novamente a si mesmo num plano mais elevado, no qual, embora perca a sua consistência civil e social, acaba por conquistar uma justificação divina. Certezinha absoluta de que foi isso que Cristo começou a compreender quando, na cruz, mal fechou os olhos para nascer. E mesmo que os cientistas consigam, um dia, reconstituir o verdadeiro rosto de Cristo, os nervos, os músculos e o sangue da sua alma serão sempre inacessíveis à estreiteza racional do ser humano. Tal como a Primavera que, apesar de hoje não estar propriamente nos seus mais exuberantes dias, não tarda a dar mais um arzinho da sua Graça.