13 março, 2016

CALIFORNICATION

Ingmar Bergman | O Ovo da Serpente [fotograma]

Não sendo O Ovo da Serpente o melhor Bergman, foi bem mais feliz a deriva americana do realizador sueco do que a deriva europeia de Woody Allen, à excepção do magnífico Matchpoint, rodado em Londres. Faço a comparação só por causa da admiração de ambos um pelo outro e pela curiosa experiência comum de uma circunstancial separação das suas endógenas geografias. Apesar da enorme estranheza que é imaginar Bergman a filmar na Califórnia (que motivou a seguinte anedota a Mel Brooks: quando Bergman deixou a Suécia queixava-se das angústias metafísicas e existenciais, de frustração, da perseguição do Estado. Quando 3 semanas depois deixou a Califórnia queixava-se do calor.), da mãozinha de Dino de Laurentis como produtor e de não ser o melhor Bergman, O Ovo da Serpente não deixa de ser Bergman no seu melhor, isto é, fiel a si próprio, com o que isso representa de virtude intrínseca.

Os filmes de Bergman podem ser uma excursão com visita guiada ao universo da angústia, do desespero, da dilaceração interior, da solidão, da incomunicabilidade, do solipsismo, do esmagamento metafísico. Mas são filmes limpos. A luz será depressiva mas é limpa. As personagens derrotadas mas asseadas. O mundo interior pode ser de derrocada mas há uma ordem exterior, seja natural ou social, que nalguns casos chega a atingir uma beleza redentora, uma espécie de cheiro a cera fresca num polido chão de madeira de uma casa em ruínas. Já O Ovo da Serpente tresanda a sujidade. Cidade suja, ar infecto, rostos macilentos e borrados de cor como graffitis decadentes numa parede a desfazer-se, comportamentos abjectos. A própria alegria é putrefacta, como putrefacta é a esfuziante música de cabaret como derradeiro fôlego de uma vida perfumada pelo indelével cheiro da morte. Não a nobre, austera e metafísica morte de o Sétimo Selo mas a morte abjecta, nauseabunda, de cadáveres adiados chafurdando na orgia de um absurdo radical. É como entrar na pintura de Otto Dix ou de Grosz através de um projector de cinema.

Mas no meio de toda aquela distópica luxúria, há um momento verdadeiramente bergmaniano que bem poderia ter sido filmado numa crepuscular e despojada ilha báltica em pleno Outono. É quando Manuela (Liv Ulmann), já sem a cara transformada em graffiti urbano, entra numa igreja em busca de perdão e redenção. O padre pergunta-lhe se gostaria que rezasse por ela mas avisando-a de que provavelmente Deus já não os vai ouvir. Por fim, depois de encostar a mão na cabeça de Manuela a dar- lhe o perdão, ajoelha-se para pedir o perdão a Manuela, cuja mão pousa sobre a cabeça do padre, que termina dizendo «É tudo o que podemos fazer». 

Numa entrevista ao Der Spiegel, em 1966, dizia o filósofo Martin Heidegger que já só um Deus nos pode ainda salvar. Ver um padre perdido a pedir a salvação a uma mulher perdida que lhe pede para ser salva é uma parede sólida sem qualquer porta ou janela para a redenção. Mesmo no calor estúpido da Califórnia, Bergman continua a ser Bergman. E, por que não, em vez de dizer «apesar do calor», dizer «por causa do calor»? A decadente Berlim, onde decorre a acção do filme, pode ser fria. Mas o ambiente é de putrefacto calor. E tal como o Ulisses que desce ao Hades é o mesmo Ulisses que regressa do Hades, o Bergman que regressa ao seu frio Heimat setentrional é o mesmo Bergman que desceu ao tórrido Inferno onde incuba o ovo da serpente.