25 março, 2016

BIBLIOTOCA


No meu tempo de estudante havia, no Campo Grande, uma excelente livraria, a Universitária, cuja dona, uma simpática, elegante e bem educada senhora, já de uma certa idade, tratava os clientes com grande deferência. A livraria tinha uma fisionomia que permitia levar facilmente livros sem pagar, havendo uma fiel legião de estudantes de Filosofia que alegremente o fazia. Nunca fui capaz de o fazer mesmo em circunstâncias em que havia condições para tal sem ser apanhado. Enfim, ainda tentei mas não consegui, fruto de uma pesada consciência e de considerar isso um acto condenável. Hoje, porém, acho bonita a ideia de alguém com pouco dinheiro roubar um livro, ideia só possível, é certo, pelo facto de não ser eu o dono da livraria.  Mas pronto, numa época em que já não se lêem livros (não falo em não comprar) e em que perderam a sua importância simbólica e cultural, consigo ver qualquer coisa de romântico no acto de roubar um livro. Se roubar uma coisa implica dar-lhe importância, alguém que se arrisca a passar pela vergonha de ser apanhado a roubar, não lâminas de barbear, um secador de cabelo ou uma camisa, mas um livro, merece o meu respeito e admiração.

Tal como a ideia de roubar livros, também esta fotografia me leva a uma mistura de sentimentos. Por um lado, sinto uma enorme repugnância pelo que de sinistro representa. Mas, por outro, ver um livro apresentado com tanto poder e orgulho, ao mesmo nível de uma arma, remete para um tempo em que também, e não necessariamente por más razões, os livros tinham na Europa um valor central na destruição e construção de mundos. Heinrich Heine, o poeta alemão que trocou o seu país pela França, exortou os franceses a não subestimarem o poder das ideias, ideias que, muitas vezes escritas em livros de um pueril inocência metafísica a montante podem, a jusante, ter consequências imprevisíveis. Daí ele dizer que na fronteira entre dois países, o que de mais importante uma pessoa leva ao atravessá-la não pode ser controlado: as suas ideias.

Não foi assim há tanto tempo que na Europa se olhava para os livros dessa maneira, um hábito vindo de tempos imemoriais, com altos e baixos conforme os países e épocas, mas atravessando toda a história. Daí a censura e perseguição de pessoas, uns por escreverem, outros por lerem, muitos desses livros, tal como ainda acontece com Os Versículos Satânicos no mundo islâmico. Hoje, porém, cada vez mais ultrapassado por formas chilreantes ou visuais de divulgar ideias, ou que apenas vagamente podemos considerar ideias, dificilmente o livro voltará a possuir tão elevado estatuto, não só simbólico como efectivo. Não estou com isto a querer exprimir comoção por ver a mão direita de um demente exibir todo o poder e horríveis consequências daquele livro. Mas a imagem nua e crua não deixa de me provocar uma inquietante estranheza. Por um lado, pela bela homenagem que é prestada ao objecto enquanto tal, ainda que por um fanático que não o merece. Mas também, e por contraste, pela sua melancólica ausência num mundo onde as palavras se assemelham cada vez mais à espuma dos dias nos quais desaguam para logo desaparecerem sem rasto. E ficando cada vez mais guardados para as cada vez menos toupeiras que os conseguem ler, longe das luzes da ribalta, qual versão moderna dos velhos ratos de biblioteca