21 março, 2016

A POESIA COMO EXERCÍCIO DE PRONTO A VESTIR

Arseny e Andrei Tarkovsky

Um dia, ouvi um aluno questionar, indignado, por que raio tinham de interpretar poemas nas aulas de Português. E justificava, dizendo que se os poetas quisessem atribuir aos poemas os significados dos quais os alunos estariam à procura, tê-lo-iam logo dado. Contei muitas vezes este episódio como sendo o cúmulo do disparate ou de uma tonta irreverência juvenil. Hoje, porém, reconheço que o aluno tinha razão. O poeta não escreve um poema para interpretarem o seu significado. Os significados dos poemas e as suas malfadadas «mensagens» existem independentemente do poema, não precisam de poemas para serem transmitidos. O verdadeiro poema é escrito para lermos o que nele aparece, para sermos privilegiadas testemunhas da uma aparição que emerge do silêncio sem dele chegar a sair. A poesia é linguagem na sua suprema nudez e impor-lhe significados é cair no paradoxo de querer vesti-la para poder descobrir a sua nudez.