19 março, 2016

A PALAVRA



Ficámos sós num mundo que se desritualizou - se banalizou e caiu no infantilismo sem infância -, que retirou do seu horizonte a dor, que amputou em nós alguma coisa, muita coisa, que era parte de nós. Ficámos mais sós no meio da infindável companhia sem comunidade das «redes». Sós no meio do ruído espectral (estão todos mortos e não dão por isso) da desconversa generalizada. [...]
Escrevi há uma década e meia um ensaio de que me recordo frequentemente. Tratava-se aí da dor, e da incapacidade de com ela conviver num mundo em que o seu fantasma nos assombra, mas não a conhecemos. Neste mundo «que se arrisca a afogar-se numa maré de instruções para ser feliz» (escrevia pela mesma altura o psiquiatra californiano Paul Watzlawick), das miragens de mundos perfeitos diariamente garantidos pela publicidade, movemo-nos entre o abandono de todos os deuses (o grande silêncio a que os Gregos chamavam Sigé) e o Geschwätz (a desconversa sem fim) estigmatizado por Nietzsche, Kierkegaard, Heidegger e Celan, numa corrida para lugar nenhum, numa incontinência verbal que, na verdade, é uma perda da linguagem. João Barrento, Como um Hiato na Respiração - Diário do Dia Seguinte

Sabia que dizer «obrigado» pode prevenir problemas cardíacos? Sabia que há comidas que nos tiram o sono? Sabia que escrever num papel o que nos incomoda pode ser uma experiência catártica? Sabia que é possível seguir várias «dicas» [vivemos num mundo de dicas] para praticar [vivemos num mundo em que se praticam cada vez mais coisas] sexo ardente? Sabia que existe uma ciência que nos ensina que, ao contrário do tempo necessário para cozer arroz, massa ou um bolo, a duração certa para o sexo depende de variáveis como a predisposição ou a situação? Sabia que pessoas com gatos têm menos amigos do que as que têm cães as quais, para além do maior número de amigos, têm uma vida sexual mais activa e mais dinheiro? Sabia que as mulheres se sentem mais atraídas por homens altos, espadaúdos e com pénis grandes? Sabia que as nossas bactérias e micróbios podem ser fofinhos e podemos ser mais felizes se aprendermos a viver bem com eles? Sabia que os cientistas também descobriram que a brincadeira deve ser vista como motor de desenvolvimento da criança [vivemos num mundo com cada vez mais ruidosos motores] Sabia que é possível atrair as energias positivas do universo, dando um novo sentido às nossas vidas? Sabia que é possível saber tudo isto e mais uma infinidade de coisas, ao dia, à hora, ao minuto?


Já achei mais piada à ideia de haver livros, quadros ou filmes da minha vida. O prazer de fazer listas, como diria Umberto Eco, que tem um livro dedicado ao assunto. Mas não deixam de existir. Um dos filmes da minha vida é The Dead, o derradeiro filme de John Huston. Tanto em Portugal como no Brasil, o título diverge do original: Um absurdo Gente de Dublin, em Portugal, Os Vivos e os Mortos, no Brasil. Quem leu o conto de Joyce ou viu o filme, percebe claramente o título original. Mas o título brasileiro também não me desagrada. Todas aquelas pessoas reunidas numa noite fria de Inverno para comemorar o Dia de Reis, encontram-se metafisicamente entre a vida e a morte. Conversam, riem, dançam, dizem poesia, comem, bebem. É noite de festa, de alegria, de são convívio. Mas percebe-se que é uma noite de festa, alegria e convívio entre pessoas que irão morrer. Daí uma melancolia que nunca abandona o filme, uma consciência da gravidade de estar vivo. Ao contrário do que possa parecer, não há qualquer morbidez ou fundo depressivo nessa consciência. Trata-se de aceitar a vida como ela é, no calor e conforto de uma casa burguesa, mas sabendo também que no exterior é noite, neva e faz um frio glacial, sendo isso tão real e físico como o fogo macio que os aquece no interior do lar. Não por acaso uma das personagens a quem é pedido para a leitura de um poema, substitui a coisa cómica que estava para dizer pelo grave Votos Quebrados. 

Aquelas pessoas podem sacudir a poeira da morte que pousa naturalmente sobre os seus ombros. Por isso conversam, conversam sempre, pois ser humano é conversar, usar do logos, da palavra. E é conversando que fazem companhia umas às outras e dão calor umas às outras, fazendo com que a poeira da morte não se transforme em pedras. A palavra não é pois traída pela desconversa ou incontinência verbal de que fala Barrento, a obsessão pela saúde, pela felicidade, pela imortalidade, pelos mil e um desempenhos diários que nos podem levar à perfeição. Entre o Grande silêncio dos gregos e a moderna desconversa sem fim, ainda será com as simples mas autênticas palavras que nos podemos ir salvando.