09 fevereiro, 2016

UM CARNAVAL PORTUGUÊS


Esta fotografia daqui retirada é, literalmente, assombrosa. Um baile, um conjunto a tocar, casais que dançam. Trata-se de um baile de um Carnaval português em 1967, divulgada no Século Ilustrado. Certo. Deixemos agora o rótulo e passemos à realidade. Ninguém está feliz neste baile. O que se faz aqui mais é olhar, procurando-se uma felicidade e contentamento que não existe, ainda que uns chapéus na cabeça tentem desesperadamente sugerir uma folia que escapa entre os sons que os instrumentos musicais espalham pelo salão. No centro há um casal que dança. Um casal que dança é uma imagem de felicidade mas também este casal olha. Ela, com um sorriso subtil e como que a evadir-se, olha para o fotógrafo. Ele, com uma expressão desconfiada, olha para ela a olhar para o fotógrafo. 

Afinal, que baile de Carnaval será este? O Carnaval é o tempo das máscaras, de uma alegria induzida e de identidades ousadas mas esta gente nem as máscaras teve coragem de pôr. Estão ali como se estivessem a ouvir cantar o fado ou um relato de futebol num cinzento e chuvoso domingo à tarde. Perpassa por este baile um acre odor. Não é o odor da melancolia pois a melancolia não é acre. Há qualquer coisa de poético e fresco na melancolia, chega mesmo a ser colorida como um verde prado outonal visto a partir de uma sala aquecida por um vermelho fogo aconchegante numa conjugação perfeita com a luz do fim de tarde que vai desmaiando até perder os sentidos. O que aqui perpassa é o odor acre da cinzenta e escura depressão. A única coisa que aqui lembra o Carnaval é o facto de estas pessoas parecerem fantasmas que, sorrateiramente, pela calada da noite, vieram ao mundo real para brincarem aos seres humanos. Esta imagem bem podia ser uma versão fotográfica e a preto e branco de uma alegremente trágica pintura de Ensor.