02 fevereiro, 2016

SMOKE ON THE WATER


Eu tinha 13 anos quando foi o 25 de Abril. Pouco depois, deixou de haver censura, começando então a aparecer filmes com cenas ousadas para os padrões da época. Como o meu pai estava ligado ao cinema, eu entrava as vezes que queria e sem pagar. Fosse ao fim-de-semana ou durante a semana no caso de estar de férias, raramente falhava um filme, incluindo aqueles que não podia por serem para maiores de 18 anos. Eu gostava de todo o tipo de filmes mas quando se tratava de um desses sentia um maior entusiasmo por saber que não me iria escapar um belo par de mamocas, que com um bocadinho mais de sorte teria direito a uma contemplação mais extática dos encantos femininos e que se fosse um dia mesmo muito especial, iria ter uma mais fogosa cena de amor, daquele fogo que não se vê mas que arde até dizer chega como bem sabia Camões, se bem que os seus sentimentos fossem mais elevados do que os meus, pelo menos metaforicamente. Ainda hoje não sei se fui mais marcado para toda a vida pelo espírito do PREC, que me fez passar uma adolescência em polvorosa, se pelo striptease da Laura Antonelli em Malícia por culpa da qual já não sabia com havia de estar sentado.

Hoje, pelos vistos, as coisas mudaram significativamente como se pode ver por esta surpreendente notícia. Eu podia fazer valer os meus parcos conhecimentos de psicanálise e tentar perceber até que ponto um cigarro pode já não ser um cigarro, um cigarro, um cigarro, pondo em causa a saúde mental de pessoas que se preocupam tanto com a saúde física. Mas não vou por aí até porque não sou propriamente um caçador de sintomas que tende a patologizar a já complexa psicopatologia da vida quotidiana. Mesmo assim, uma saúde mental periclitante é coisa de que os médicos da OMS dificilmente se livrarão. Imagino mesmo o desequilíbrio de certas cabeças para se conseguir chegar à conclusão de que 44% dos filmes produzidos em Hollywood mostram tabaco. Ou a do doutor Armando Peruga para ter chegado um dia à horrível conclusão, depois de horas e horas na escuridão de uma sala a monitorizar, de que no biénio 2013/14 houve um aumento de cenas onde aparece tabaco.

Mas mais do que a saúde mental dos médicos, o que verdadeiramente me preocupa é a saúde mental dos nossos jovens. Por este andar, qualquer dia iremos ter salas de cinema onde jovens de óculos escuros e gabardina entram anónimos para ver filmes onde aparecem cigarros. Nas salas de cinema mais decadentes de qualquer bas-fond citadino, iremos ter mesmo sessões contínuas em que se pode saltar de um filme com John Wayne para um outro com Bogart ou Al Pacino, deste para Robert Mitchum que antecede Lauren Bacall a quem sucede Marlene Dietrich ou James Dean. O filme Coffee and Cigarettes de Jim Jarmusch adquirirá mesmo o estatuto de filme satânico, proibidíssimo em países como os EUA e todos os restantes que lhes seguem as pegadas anti-tabagistas. Que geração será esta, que irá ter sonhos molhados com cigarros, os quais, por ironia, até se querem bem secos? Que sanidade mental será a de um jovem que não saberá como estar sentado na cadeira perante um qualquer durão a sacar de um Marlboro tal como eu não sabia ao ver o striptease da Laura Antonelli? Ambos ardemos sem se ver. A causa do lume é que é diferente.