03 fevereiro, 2016

OS BINÓCULOS

Mary Cassatt | No Camarote, 1878

No palco está a decorrer uma ópera, todavia, em vez da ópera, a mulher observa alguém que estará a ver a ópera, sendo ela própria observada por um homem que por isso também não vê a ópera. Os diferentes olhares daquela sala estão pois concentrados em dois pontos distintos da realidade: o olhar dos espectadores, sem binóculos, vendo a ópera que decorre no palco; o olhar da mulher e do homem com binóculos, vendo os que vêem a ópera. O que faz com que os primeiros vejam o mundo que justifica a sua presença ali, e com que o homem e a mulher vejam apenas quem vê o mundo. É verdade que as pessoas observadas são tão reais e parte do mundo como a ópera que decorre no palco. Em rigor, direi até que as pessoas observadas acabam por ser mais reais e verdadeiras do que os actores e os cenários do palco vistos pelas pessoas observadas, onde tudo é artificial, um faz-de-conta. Neste sentido, o homem e a mulher, observando os espectadores, olham mais para a verdadeira realidade do que os últimos, que olham para uma falsa, porque teatral, realidade.

Pois, só que eles estão numa ópera, onde se vai para ver um espectáculo para dele retirar o devido prazer. Temos assim dois mundos com diferentes valores e graus de importância: há espectadores que sentem prazer perante a ópera, num espaço próprio para ver ópera; o homem e a mulher, por sua vez, não vêem a ópera, sentindo apenas prazer ao observarem os outros a sentir prazer perante a ópera. Parece, assim, que os espectadores sentirão um prazer superior ao do homem e da mulher, um prazer mais adequado à essência do lugar. Mas podemos de novo objectar: o prazer do homem e da mulher, é tão genuíno e legítimo como o prazer dos espectadores ao verem a ópera. É verdade, e não ponho isso em causa. Prazer é prazer. O prazer de comer um gelado nada tem que ver com o prazer de ouvir um quarteto de Schubert, mas ambos são genuínos e legítimos prazeres. E não quero negar ao homem e à mulher com binóculos o direito de reduzirem o seu prazer ao prazer de verem espectadores que sentem prazer em ver uma ópera. Cada um deve sentir o prazer que mais lhe interessa, desde que não prejudique os prazeres dos outros. Aceito, portanto, que pessoas vão à ópera para ver o espectáculo, assim como outros vão à ópera para ver os primeiros a ver o espectáculo.

Pronto, muito bem, a coisa poderia ficar por aqui. Mas também não consigo deixar de olhar para este quadro e ver nele uma perfeita tradução do que hoje se passa num mundo dividido entre quem vive a vida como ela é, seja boa ou má, e quem vive de ver os outros viver, o que me parece intrinsecamente mau e existencialmente pouco interessante. E apesar da analogia com o quadro de Cassatt, há uma diferença favorável ao homem e à mulher dos binóculos face aos novos voyeurs das revistas sociais, dos programas de televisão ou das redes sociais. Apesar do seu voyeurismo, encontram-se no mesmo plano social dos espectadores observados, ambos partilham uma mesma realidade, o mesmo mundo, ainda que os pontos focados sejam distintos. Já o voyeurismo virtual de hoje é cada vez mais um voyeurismo puro e duro, havendo uma separação clara entre a luminosidade de um mundo natural e a escuridão de um mundo virtual. Como na velha alegoria de Platão: escravos dentro de uma caverna, vendo projectadas no seu interior as sombras de pessoas e objectos que vivem as suas vidas lá fora.