01 fevereiro, 2016

O REGICÍDIO


Pode ser estranho um homem tão fleumático como Alexandre Herculano ter chorado que nem uma Madalena no funeral de D. Pedro V, também ele um fleumático, bem mais Saxe-Coburgo do que Bragança, como diz Maria Filomena Mónica na sua biografia. Tal reacção pode ser explicada não só pela sua ligação pessoal ao jovem rei mas também por este ter sido uma espécie de milagre alemão num país como Portugal. E basta pensar no «exílio» ribatejano de Herculano para ajudar a perceber as afinidades electivas com um rei que também se sentia culturalmente exilado numa pátria com a qual, ao contrário do pai, nunca se conformou. Numa carta de Agosto de 1856 ao príncipe Alberto de Inglaterra, seu tio, escrevia o seguinte:

Quando uma pessoa é obrigada a viver na companhia dos nossos políticos, chega-se, ao fim e ao cabo, por perder toda a fé e uma mínima esperança de melhoramento.[...] Ainda nunca, em Portugal, um ministério foi derrubado pela acção da Câmara dos Deputados. Tem sido sempre, sempre revolução ou intriga que tem escorraçado os ministros dos seus lugares.

D. Pedro era inteligente mas não tinha poderes sobrenaturais. Não se deve pois ver na referida queda de políticos por via revolucionária ou palaciana em vez de normais procedimentos constitucionais, uma premonição do triste destino do seu futuro sobrinho, no Terreiro do Paço. Uma trágica ironia, apenas isso. Mais relevante é a sua perda de fé por saber que o problema de Portugal não está neste e naquele político, sendo antes estrutural, demasiado estrutural para um homem ou um regime. 

Perda de fé, essa sim, sabiamente premonitória, se olharmos para a história que se seguiu ao crime bárbaro e soez de 1908 e para o golpe de estado de 1910, percebendo-se a sua inutilidade, já agora, outra ironia, numa monarquia pioneira na abolição da pena de morte. A doença de Portugal não resultava de um regime monárquico mas de si próprio enquanto país, sobretudo das suas elites. Foi tão absurdo, bárbaro e criminoso assassinar D. Carlos como teria sido assassinar Cavaco Silva, Sócrates ou Passos Coelho pelo descontentamento face aos seus governos, por muito maus que fossem. Portugal estava bem em 1908 ou 1910? Não, como não estava antes, não viria a estar depois e o mais certo é nunca vir a estar, sendo uma estúpida futilidade revolucionária matar um rei e pouco depois derrubar uma monarquia constitucional moderna. O que se seguiu é sobejamente conhecido: uma primeira república caótica e fratricida, uma segunda, fascista, e uma terceira que pagou caro o reaccionarismo da segunda, para além de também pagar caro os disparates de quem nela tem mandado. É impossível saber o que poderia ter sido o século XX português sem o regicídio e o posterior golpe dos fanáticos republicanos. Não posso dizer que Portugal estivesse muito melhor do que hoje. Mas arrisco dizer que estaria melhor pelo que não teria vindo a acontecer depois.