21 fevereiro, 2016

O PRAZER DO TEXTO

[Agustina Bessa Luís]

Dei comigo a pensar como pode a palha ser de ouro. Nada tem que ver com aquela história dos irmãos Grimm em que a filha do moleiro fica à mercê do capricho de um duende; ou com o famoso aforismo no qual Heraclito lembra que os burros preferem a palha ao ouro. Estou a falar da palha dos testes, aquelas respostas de uma página quando bastariam quatro ou cinco linhas para expor a mesma ideia, a palha vista como uma subtil loquacidade para disfarçar a ignorância do aluno. E falo, não para a anatematizar com o frívolo desprezo de um professor farto de corrigir testes mas, bem pelo contrário, para a enaltecer em nome da sua pletórica ousadia e romântico deleite.

Num teste, a cotação de uma pergunta varia de acordo com a complexidade da resposta, havendo por isso perguntas de desenvolvimento cujo peso é maior. Ora, se há coisa que me irrita é ler a resposta a uma pergunta de desenvolvimento na qual o aluno, revelando uma capacidade de síntese implacavelmente perfeita, diz tudo o que é preciso em três linhas, tendo eu, por isso, que lhe atribuir a cotação máxima embora com a sensação de que falta dizer muita coisa. Será que a pergunta não seria de desenvolvimento mas de resposta curta, estando eu equivocado quando a formulei? Pois, se uma resposta de três linhas merece a cotação máxima isso parece confirmar a ideia de que é curta e não de desenvolvimento. Ainda assim, ainda que o meu lado técnico e racional me diga isso, não consigo olhar para a resposta sem deixar de sentir que haveria muito mais para escrever. O que falta então ali? O prazer do texto. 

Se eu ingerir uma pílula que tenha as mesmas propriedades nutritivas de um cozido à portuguesa, o meu organismo irá receber a sua necessária dose de proteínas, vitaminas, cálcio, ferro e assim. Se um nutricionista fizer a avaliação da pílula terá assim que lhe atribuir a cotação máxima. Acontece que engolir uma pílula com um bocado de água não é a mesma coisa do que comer um cozido à portuguesa, com os seus diferentes sabores, aromas, texturas ou até com as suas diferentes cores uma vez que os olhos também comem, Com o texto passa-se exactamente a mesma coisa. Aquilo que muitas vezes consideramos palha não o é. Palha seria estar sempre a repetir a mesma ideia ou dizer coisas absolutamente inúteis. Palha, neste caso, é a saborosa resposta de um aluno que não se limita a dizer o que é preciso mas que tem prazer no que está a escrever, associando ideias, fazendo analogias, adjectivando, enumerando, gostando de dar exemplos para melhor ilustrar a ideia ou que se compraz com uma metáfora ou qualquer outro recurso estilístico. Trata-se, no fundo, do discurso vadio, de alguém que, sem se perder, e em vez de seguir pela avenida central que o leva em dois minutos ao seu destino, se aventura por becos e vielas, ruazinhas, sentindo que o seu prazer em escrever irá ser correspondido pelo prazer de quem vai ler, num jogo erótico ou de sedução entre escritor e leitor, fazendo com que a árida, hirta, espartana ou funcional resposta de três linhas lembre o caricato orgasmatron de O Herói do Ano 2000 (Sleeper) de Woody Allen. 

Sim, eu sei porque me irrito ao dar a cotação máxima a uma resposta que a merece. Merece-a mas sem nada ter feito para me seduzir ou dar prazer. O que faz o aluno que escreve três linhas? Apenas mostrar-me que estudou, que sabe a resposta, que domina o dedutivo encadeamento de um raciocínio. Mais nada. Sem uma ponta de ousadia, criatividade, imaginação, sem quaisquer vestígios do prazer com que escreve aquele que adivinha, com fina volúpia e uma cúmplice piscadela de olho, o prazer de quem vai ler. 

Na vida, há coisas bem mais interessantes para fazer do que corrigir testes. Mas, caramba, prefiro demorar mais tempo a corrigir um teste com palha, neste caso, com o amarelo dourado da palha de Abrantes, do que um outro que pede apenas para ser engolido com um pouco de água. Mas para não pairar aqui a ideia de que sou obcecado por palha, e não me querer transformar no burro de Heraclito, o melhor é ficar por aqui.