15 fevereiro, 2016

O GRANDE ENTOMÓLOGO

Margaret Bourke-White | Chapéus no Garment District, NY, 1930

John Burdon Haldane, um geneticista, dizia que se o mundo fosse criado por Deus, este teria mesmo que sentir uma enorme e incontrolável devoção por insectos. Só isso explicaria o facto de ter criado 350 000 espécies diferentes destes bicharocos. Pronto, está bem, Deus não existe, ou pelo menos o Deus de Moisés, Abraão e Jacob ou qualquer um outro Deus que sinta devoção pelo que quer que seja. Mas não deixa de ser divertida a ideia de um Deus no céu a criar tantas espécies de insectos como se fosse uma criança inteligente, de língua de fora, a divertir-se com as suas prodigiosas invenções. Mas se já pensarmos no pensamento de Deus a criar o homem, supõe-se que teremos de levar a coisa mais a sério pois ninguém gosta de ser comparado com um vil insecto cuja estranha morfologia, ao contrário da nossa bela e vitruviana proporcionalidade e simetria, e alojando um encéfalo reforçado, só pode resultar de uma desenfreada e delirante imaginação de um ocioso Deus que precisa disso para ajudar a matar o tempo tal como os mortais preenchem livrinhos de charadas. Neste caso já não seríamos capazes de olhar para Deus como criança fascinada por vis pormenores entomológicos, mas como um responsável adulto, com ar compenetrado, cheio de respeito e elevada consideração por seres criados à sua imagem e semelhança, por ele amados individualmente, com o seu nome próprio, a sua alma própria e a sua vida própria, enfim, com as suas únicas e inconfundíveis impressões existenciais. Feridas narcísicas é coisa de que não gostamos até porque para essas não há Betadine ou antibióticos que nos valham.

Mas, se existisse, como nos veria Deus lá do alto da sua morada celeste? Conhecendo o rosto, a vida e a alma de cada um e dedicando-lhe um especial amor e carinho? Não, veria a humanidade numa escala infinitamente menor do que aquela com que vemos um carreiro de formigas ou a bancada de um estádio de futebol a abarrotar de gente vista de um avião. Eu sei que é desconfortável pensar que é desta maneira que Deus olha para os biliões de seres humanos que já existiram, existem e irão existir. Mas nós, que não somos Deus nas alturas, já acabamos por fazê-lo cá em baixo. Através da ciência, desde a Biologia à Sociologia e à História, passando pela Estatística e grande parte da Filosofia. A inteligência tem horror ao pormenor, procurando antes leis, padrões, texturas, abstracções. Deus, não sendo apenas mas a inteligência suprema, sentiria um supremo horror pelo irrisório e fútil pormenor que cada um de nós é e com o qual não teria grande tempo a perder tal como acontece com o mais insignificante de todos os insectos. Estamos radicalmente sós e é radicalmente sós que temos de saber viver.