28 fevereiro, 2016

O BIGODE


Sendo a fotografia uma invenção recente, só dispomos de retratos fotográficos desde meados do século XIX. Antes disso, só graças ao pincel do pintor, o que cria uma aura de mistério à volta das figuras retratadas. Por duas razões. Por um lado, pela diferença entre a essência subjectiva do pincel (por muito mimético que seja o exercício), e a realista objectividade de uma lente que liberta a figura das tentações criativas e imaginativas do pintor que nos roubam a pessoa em si mesma. Por outro, porque quanto maior for o afastamento temporal do retratado, maior será também a sua distância psicológica e social em relação a nós. Um grupo de pessoas numa fotografia de 1910 habita um mundo muito diferente do nosso mas de certo modo já lá estamos, partilhando referências comuns com elas. Já as pessoas de um retrato de grupo do século XVII vivem num mundo cujas referências, desde os seus quadros políticos, sociais, religiosos e morais, até às roupas que vestem ou maneira como comem, estão bem mais afastadas das nossas, aumentando assim a distância entre o que são e o que nós julgamos serem.

Mal eu vi a fotografia exposta em cima, e foi tiro e queda mesmo, lembrei-me dos retratos de grupo na pintura, sobretudo os holandeses do século XVII, enquanto género. Umas das características desses retratos é o facto de os seus protagonistas estarem unidos por uma profissão ou actividade social, sendo apresentados numa posição de igualdade. Vejamos este grupo de Jan de Bray, ou este de Van der Merck, ou este de Van Loo ou ainda este e este de um dos mais simpáticos pintores de todos os tempos. Não se vê uma hierarquia ou uma demarcação individual dos seus elementos. Cada pessoa não pode deixar de ter uma identidade, um rosto que o individualiza, mas na verdade a composição parece mais motivada para acentuar o que os une e não o que os separa. Mesmo nesta famosa Lição de Anatomia do Dr Tulp. não há uma clara demarcação entre professor e alunos. E mesmo sendo um exercício mais arriscado, creio poder esticar ainda a corda para dizer que mesmo aqui, e apesar da centralidade espacial e formal do capitão Cocq e do tenente Ruytenburch, o objectivo parece ser mais o de realçar a força e dinâmica de um grupo que é anterior à soma das partes do que um enaltecimento individual das figuras centrais. Este isomorfismo democrático mais se fará notar se compararmos todos aqueles quadros com, por exemplo, os Painéis de Nuno Gonçalves, O Enterro do Conde de Orgaz ou tantos outros que retratam a vida social no tempo em que foram pintados, havendo em todos eles pessoas com uma posição ou função social diferente. No Enterro, ao contrário da rigidez clássica exibida nos Painéis, e apesar da sua sublime dinâmica colectiva nas suas diferentes camadas espaciais, tanto no plano terrestre como no plano celeste, cada uma daquelas pessoas está ali por uma razão e para exercer um papel individual.

Gostaria agora de fazer um pequeno mas estimulante exercício: como verá alguém esta fotografia daqui a 300 anos? No fundo, estará para si como os retratos do século XVII para nós, uma distância suficiente para fazer sentir que se trata de um mundo completamente diferente. Creio que irá ser vista de um modo que fará aproximá-la do registo holandês. Há uma figura central, demarcada, que fala enquanto os outros ouvem com hierática atenção. Mas tal como na Lição de Anatomia ou na Ronda da Noite, não existe um verdadeiro destaque, nem sequer enquanto primus inter pares, surgindo mais como par do que como primus. Aquelas pessoas emergem claramente num todo sobreposto a cada uma das individualidades cuja gravitas mostra a seriedade e sentido de responsabilidade com que cada um avalia a função ali exercida. Serão certamente burgueses, pessoas endinheiradas e com elevada posição social e, nesse sentido, cada um será o centro de si próprio. Mas enquanto ali estão há uma águia que os sobrevoa para os reduzir à condição de humildes subalternos. Se no ano de 2316 ainda se virem filmes de romanos, irão ficar confusos. Não há capacetes nem lanças nas mãos, mas a águia central e todo aquele vermelho conferem à situação um registo imperial. surgindo aquelas pessoas numa posição equivalente à de senador, cônsul, tribuno ou pretor.

Todos se vestem de modo igual: roupa formal, clássica, exibindo assim o seu importante estatuto social. Apenas um pequeno pormenor mas que pode fazer toda a intrigante diferença para a pessoa de 2316: o bigode da figura central. Não o bigode em si. Houvesse ali mais pessoas de bigode e não teria impacto: uns teriam, outros não teriam. Ou se houvesse apenas um mas que não fosse a figura central, também seria visto como uma opção individual tal com as calças claras que ali surgem. Mas não: é a figura central a única a ter bigode. Eu não acredito que na cabeça de uma pessoa de 2316 tal facto não possa ter um significado. Vamos supor que a pessoa não está habituada a ver fotografias antigas e nada sabe do mundo de há 300 anos. Muito provavelmente irá ver o bigode como um símbolo de poder ou distinção social. Eu olho para a Lição de Anatomia do Dr Tulp e no meio de todos aqueles bigodes, barbichas e golas iguais, vejo alguém que se demarca de todos os outros pela gola e pelo chapéu: o professor. Não sendo eu historiador, sendo mesmo ignorante no que a essa época diz respeito, induzo, algo levianamente, admito, que aquela diferente gola e chapéu deverão servir para distinguir o professor dos alunos. Neste caso, o bigode é regra mas no caso da nossa fotografia, o bigode é excepção. Se tiver alguma coisa que ver com a condição social de quem o usa, deverá a futura pessoa inferir que, vestindo-se ele da mesma maneira, mas sendo o mais importante de todos e sendo ele que é ouvido com atenção e respeito, o mais certo é ser o bigode o código de uma putativa distinção social. Ou pensará tratar-se de uma mera coincidência? Podia ele não ter bigode e alguns dos outros terem? Sim, podia, sabemos nós responder, ao contrário da futura pessoa. Mas também sabemos que não se trata de qualquer coisa de arbitrário, independente de factores sociais e culturais. Há uma razão para aquele homem ter bigode, embora pudesse não o ter, do mesmo modo que todos os outros terão uma razão para não o ter, embora pudessem ter. Para nós, actualmente, é óbvio, mas são necessários ínfimos elementos sociológicos para o perceber e nós, estando a jogar em casa, dispomos deles. Mas em 2316 não passará de um enigma que alimentará a imaginação e criatividade do receptor. Mesmo tendo este bigode chegado até ele graças à realista objectividade de uma lente e não do subjectivo pincel de um pintor.