22 fevereiro, 2016

F FOR FAKE


Allan Arbus | Kathy Slate com Boneca num Carrinho de Bebé, 1953

Uma aluna escreve num teste «edonista» em vez de «hedonista». É um erro ortográfico, sim, mas, sendo uma palavra nova e difícil, é normal que uma garota de 15 anos a memorize sem a correcta expressão escrita. O que me traz aqui é a razão por que fez ela cair o «H» de «hedonista», mas o mesmo não acontecendo quando escreve «homem», «horrível» ou «holocausto», quando o som de todas elas dispensa a letra «H». A explicação é óbvia e não é só porque lhe ensinaram a escrever humano, horrível e holocausto em vez de umano, orrível e olocausto, do mesmo modo que, ao estudar os «ossos» (que aprendeu em vez de «hossos») aprendeu a escrever «úmero» em vez de «húmero». Ora, eu também escrevi no quadro a palavra «hedonismo» e foi «hedonismo» que a aluna aprendeu no manual. 


O que leva um aluno normal a escrever bem ou mal uma palavra é a maior ou menor familiaridade com ela. Trata-se de um adestramento. Aprende a escrever «humano», não só porque foi assim que lhe ensinaram mas porque a leu e escreveu muitas vezes. É como fazer uma receita culinária depois de ter visto alguém a fazê-la uma só vez ou muitas vezes, agindo, neste caso, quase automaticamente. A aluna já não precisa de pensar antes de escrever «humano» e o mesmo lhe aconteceria se tivesse de escrever «umano» se assim lhe ensinassem. Quando voltar a escrever «edonista» talvez se lembre do risco vermelho no teste e escreva «hedonista». E se tivesse que a ler e escrever muitas vezes iria fazê-lo com o mesmo automatismo com que escreve «humano», ainda que sem saber porquê.

Onde é que eu quero chegar? Antes, ainda preciso de lembrar que na cabeça de todas as pessoas, tal como na desta jovem, o adestramento não tem qualquer ligação ao sentido das palavras, à sua etimologia, à sua semântica. É como saber que para a dor de cabeça há o comprimido A, para a tensão arterial o comprimido B e para a diabetes o comprimido C, sem fazer ideia da composição química de cada um e respectivos impactos no organismo. Uma criança apenas precisa que lhe ensinem a escrever para poder exprimir-se por essa via. Se for «humano» é «humano». Se for «umano» é «umano» e com a mesma naturalidade com que a minha aluna escreveu «edonista» porque na cabeça dela o primeiro som que se ouve é o «E».

Agora sim, onde pretendo chegar? À ideia de que as sapientes criaturas responsáveis pelo famigerado Acordo Ortográfico descem ao nível de crianças e jovens ignorantes que apenas precisam de aprender a escrever sem outro critério para além do pragmático, delapidando todo um património linguístico. Claro que uma língua existe no tempo e pode evoluir. Pode, e deve, mas sem ter de destruir palavras revestidas de uma identidade histórica. Dizem alguns que já se escreveu «philosophia», «pharmácia» ou «philantropia» e que hoje estamos tão familiarizados com o «F», que tão bem casa com a sua fonética, que se torna difícil imaginar a escrevê-las como dantes. Pudera. Fomos adestrados com o «F» e só tivemos de aprender a lição. Mas por que razão os ingleses, os franceses ou alemães não se surpreendem ao escreverem com «PH» palavras que pronunciam com o som «F» ou palavras com consoantes repetidas como «affordable» (Inglês), «accord» (Francês) ou «erkennen» (Alemão)? Como reagirá um inglês se lhe impuserem «Filosofy» no lugar de uma arcaica «Philosophy»? Podemos dizer que se é tudo uma questão de hábito, tanto faz ser de uma maneira ou de outra, o que importa é adestrar bem. Sim, há que adestrar, é assim que se aprende a escrever e a falar. Mas outra coisa é adestrar sem qualquer respeito por um património que é de todos e que não pode ficar à mercê de meia dúzia de modernaços que se comprazem com fúteis engenharias linguísticas.