24 fevereiro, 2016

EDONISMO

Julia Margaret Cameron | Mrs Duckworth, A Beautiful Vision, 1872

Sabemos que há males que vêm por bem e que Deus, se para aí virado, escreve direito por linhas tortas. Sabemos ainda que há grandes descobertas científicas que resultaram de meros acasos caídos no colo de cientistas. Ora, pode acontecer precisamente a mesma coisa com os conceitos. Uma aluna minha, respondendo num teste a uma pergunta sobre John Stuart Mill, escreveu «edonista» em vez de «hedonista». Um erro ortográfico, claro, mas estimulante por nele germinar um inaudito conceito para enriquecer as nossas catalogações mentais.

«Hedonismo» vem do grego «hedonê», que significa «prazer». Acontece que o afortunado erro da minha aluna ao fazer cair o «H» permite, deste modo, caído do céu, associar a ideia de prazer à ideia de Éden: um prazer edénico, o prazer inocente e espontâneo de uma consciência pré-reflexiva. No Génesis, está escrito, Adão e Eva só abrem os olhos no momento em que comem o fruto no qual nem poderiam tocar. Quer isso dizer que antes eram cegos? Não, ou pelo menos literalmente. Abrir os olhos, aqui, significa passar a ver o que não poderia ser visto como condição para manter uma inocência que permitiria viver em paz consigo próprio e com o mundo. O livro não fala em prazer e muito menos em consciência do prazer, mas tem de haver forçosamente prazer. Simplesmente, não é o nosso prazer, um prazer reflexivo, o prazer do prazer, o prazer de quem tem prazer por sentir prazer e sabe por que o sente assim como o que pode levar a deixar de sentir. O nosso prazer, como diria Heraclito, é um prazer que reconhecemos em oposição à dor. Damos valor à saúde em oposição à doença, damos valor à saciedade em oposição à fome. Prazeres de quem já abriu os olhos para um mundo no qual temos consciência do bom e do mau, do que desejamos e repudiamos, do que provoca prazer e sofrimento. Ora, o prazer adâmico é um prazer que já não conhecemos ou que apenas podemos simular através de um exercício imaginativo, conseguindo uma espécie de aproximação. 

Quando, em A Cidade e as Serras, José Fernandes e Jacinto sobem até ao Sacré Coeur (ainda em construção), contemplando lá do alto a cidade responsável por levar Jacinto a sofrer de um doentio «parisianismo», isto é, uma obsessão pelos prazeres mundanos, artificiais, o seu amigo, alertando-o para a decadência da cidade, lembra o antigo vigor de um «esbelto e rijo e nobre Adão». E mais à frente, a respeito da alienação provocada pela cidade, invoca os «caminhos assoalhados em que os Faunos amam as Ninfas na boa lei natural». O caminho para o Douro não é outra coisa senão um percurso regressivo até um paraíso perdido nos meandros da civilização, uma espécie de dialéctica ascendente que leva a consciência até um nível superior da existência e superior porque pré-racional. Claro que nunca se pode voltar a ser virgem. Jamais se poderá voltar a ser Adão depois de Adão. Mas o prazer de Jacinto no Douro é, por aproximação ou familiaridade, de uma ordem que podemos considerar edonista.