14 fevereiro, 2016

DIA DA DISFUNÇÃO ERÉCTIL

Jeff Koons | Mão no Peito, 1991

Não deve ser entendida como despicienda coincidência o facto de hoje, dia dos namorados, ser também o dia da disfunção eréctil. Dê lá por onde der, o amor é..., acima de tudo (ou melhor dizendo, abaixo de tudo), um estado químico, ainda que ligado aos mais complexos circuitos da mente pré-frontal, embora não pela glândula pineal como acreditava o sapiente Descartes ainda na pré-história da Biologia. Neste sentido, não está o amor longe dos malignos circuitos que assolam as penitentes vítimas da disfunção eréctil que vivem como se fossem nocturnamente visitadas por um súcubo, transformando as doces libações em honra de Eros num permanente desespero sacrificial. 

Talvez por influência de documentários do National Geographic, pelas investigações de Henri Laborit ou da escola do Konrad Lorenz, sempre que penso no ritual de oferecer flores como se fossem molhos de couves, de comer chocolates em forma de coração ou de vestir lingerie especial para levar ao restaurante, não consigo deixar de pensar em tentilhões, peixes esgana-gato ou os mais fleumáticos pinguins, preparando-se para o nobre momento do acasalamento, por imposição filogenética e em honra do famoso gene egoísta do qual somos súbditos, tal como os seres vivos mais irracionais, ou pelo menos com mais fama disso, o que não significa que com mais proveito. Não há nada de errado nisto e mesmo que houvesse quem sou eu para vir pôr em causa o que a sábia natureza impõe aos seus súbditos, entre os quais se incluem os mais sapiens dos sapiens

Não se pense ser eu um cínico doutrinado por La Rochefoucauld e que enfrenta a sua amante com a frívola, embora delicada, diplomacia que deve inspirar um embaixador em território estrangeiro, seja este mais amigo ou inimigo. Ou um fanático crente do II Reich e da sua orgásmica ideologia que tanto furor fez já depois de incinerados os distópicos delírios do III Reich. Eu acho muito sinceramente o amor uma coisa bonita que deve ser cultivada como um jardim, seja este mais clássico, barroco, romântico ou zen, conforme o gosto dos enleados protagonistas. Mas um «dia do amor» ou, pior ainda, um «dia dos namorados», consegue ser tão empolgante quanto a harmonia natalícia perante um monitor de televisão ou a tropical exuberância do carnaval num dia de frio e de chuva em Ovar ou Torres Vedras. E não sou, pelos vistos, a única pessoa a pensar assim, embora mais respeitador das liberdades civis do que as cultivadas naquelas bandas. Aos casalinhos sugeria antes, como ritual anual, ficarem no recato do lar, lendo a dois o Cântico dos Cânticos como preparação para os dias de Primavera que, dentro de algum tempo, regressará no seu esplendor. Há mais amor, erotismo e sensualidade neste arcaico poema do que numa caixa de chocolates em forma de coração, num livro com capa cor de rosa envolvido por uma rendinha ou na cera de uma perfunctória vela que se derrete sobre a mesa ao jantar. E raios, a existir um dia dos namorados deveria ser comemorado no dia da Espiga ou no domingo de Páscoa e não num obscuro dia de Inverno por muito que o frio e a chuva apelem aos românticos e, por inerência, bem ígneos, argumentos da lareira. O dia dos namorados, seja lá o que isso for, deveria ser sempre um dia de primaveril renovação e de ressurreição, após os Invernos dos descontentamentos vários. 

É que o viço das flores, que se oferecem quimicamente como se as pessoas fossem ratinhos contentes na sua gaiola, rapidamente se revela disfuncional dentro dos seus jarros. Daí a conveniência deste dia, mais de roses do que de wine, para lembrar os perigos e ameaças da disfunção eréctil. Não é por os chocolates terem forma de coração que vão deixar de se derreter dentro das bocas, desvanecendo-se na imensidão de um corpo que logo adormece, para voltar a acordar mas já derrotado por um súcubo. Difícil de vencer porque a luta contra si próprio será sempre a mais árdua de todas as lutas.