05 fevereiro, 2016

CONHECE-TE A TI MESMO

Philipe Salaün | La Vie de Château, 1972

Chegou o sempre emocionante momento anual de perguntar aos alunos se prefeririam ser um Sócrates inteligente e sagaz, mas insatisfeito, ou um porco que de sagaz e inteligente nada tem mas com uma vida regalada, usufruindo dos mais elevados prazeres suínos, dormindo numa pocilga de luxo onde chafurda numa espécie de lama gourmet. Como sempre, há alunos que dizem preferir o porco satisfeito, pretextando o seu elevado prazer e satisfação como fins de uma existência que se torna, em virtude disso, valiosa.

Pergunto-lhes depois: «E que tal escolher entre ser um Sócrates insatisfeito ou um idiota feliz?». Peço para imaginar um tontinho que acredita em coisas que o tornam feliz, como a de ser um cientista genial que se farta de inventar coisas ou um rei dominando um império e que vive rodeado de prazeres e riquezas. Ficções que tornam a sua vida num paraíso apesar de internado num hospital psiquiátrico. Desta vez, os alunos vacilaram, acabando mesmo por rejeitar a oferta. Entre o estupefacto e o expectante, indaguei com inusitada firmeza teatral: «Que raio, um idiota, por muito idiota que seja, continua a ser um homem, mas um porco, caramba, um porco, já não se importariam, como é possível?!»

Silêncio, sorrisos amarelos, pensamentos engasgados. Até que um deles, rapaz bastante argumentativo, põe finalmente o córtex ao serviço da boca (ou a boca ao serviço do córtex) para formular uma explicação: «Se eu fosse um porco, estaria a viver de acordo com a minha natureza, fazendo o que é suposto esperar de um porco [não usou a palavra mas, e para usar um jargão existencialista, quis dizer que o porco levaria uma vida autêntica]. Já sendo idiota, estaria a levar uma existência falsa, irreal e muito afastada do que se espera de um ser humano normal». Em suma: um porco feliz não deixa de ser um verdadeiro porco, enquanto um idiota feliz não é um verdadeiro ser humano.   

Um bom argumento, sem dúvida. Mas o que se torna aqui verdadeiramente interessante é a sua ressonância socrática, fazendo-me pensar no respeito filosófico do aluno pela máxima do templo de Delfos que tanto impressionou o filósofo grego: «Gnothi seauton», «Conhece-te a ti mesmo». Um respeito que faz com que não impugne a hipótese de estarmos perante um porco socrático, um porco sendo verdadeiramente aquilo que é. Se juntarmos a isso a sua felicidade, talvez se torne um destino merecedor da nossa atenção.