10 fevereiro, 2016

BRAÇOS DE PRATA


Cristiano Ronaldo fez há dias 31 anos, bonita e viril idade, próxima dos 39 anos que contava Frédéric Chopin naquele sombrio e outonal dia de 1849 em que se despediu deste mundo, em Paris, capital já de si iluminada mas na qual o compositor polaco viveu como estrela brilhante, não muito distante da capital onde o coruscante astro e orgulho de todos nós ofusca uma constelação de estrelas que gira em seu redor. 

Não menos brilhante era a cidade alemã de Baden-Baden no século XIX, mas por outras razões: capital da aristocracia europeia durante os meses de Verão, para onde peregrinava por causa das suas elevadas virtudes termais e esplêndidos hotéis, assim como do seu famoso casino onde diariamente Dostoievski perdia a cabeça, embora não de modo a impedi-lo de se inspirar para escrever O Jogador. Aliás, da escassez de aristocratas russos não ousaria queixar-se a glamorosa estância balnear, não sendo pois um fruto do acaso o facto de também uma parte de Anna Karenina lá decorrer. Mas sem qualquer margem para dúvidas será Turgueniev o escritor russo mais ligado à cidade e onde decorre um dos seus mais belos romances, Fumo, todo ele protagonizado por homens e mulheres que falam a mesma língua de Catarina II em Petersburgo, embora com fortes e bem afectadas misturas de Francês, língua em que se metamorfoseou o nome polaco do autor dos Nocturnos, bem mais agreste para um sensível ouvido ocidental, pouco dado a eslavas cacofonias.

No romance há uma muito fugaz referência a uma Princesa Babette, em cujos braços, diz o escritor, morreu Chopin. Ainda me dei ao trabalho de saber se a Princesa existiu mesmo e, caso se confirmasse, se teriam sido os seus míticos braços acolher o último suspiro do compositor. Trata-se, porém, de um irrelevante e supérfluo pormenor. O que pretendo mesmo extrair da pena do escritor é uma parentética nota de cáustico humor quando, ao apresentar a dada altura uma longa série de personagens russas, emerge então Babette e a tal referência aos seus crepusculares braços: «(calcula-se que haja na Europa quase mil damas em cujos braços Chopin soltou o último suspiro)».

Compreende-se a existência de uma miríade de candidatas ao mítico estatuto de dona dos braços que ajudaram o compositor na primeira ligação entre o mundo terreno e o mundo celeste, não só pelo fascínio exercido pelo melancólico criador no público feminino mas ainda pelo facto, este sim, verdadeiramente empírico, de a sua conturbada relação com George Sand haver terminado dois anos antes. Todavia, para uma jovem nativa do século XXI será uma experiência bizarra olhar para esta fotografia do compositor, em casa de Moritz Schelesinger, seu editor (só por curiosidade, falecido em Baden-Baden), muito pouco antes de morrer, e pensar não só como podia a tuberculose ser uma doença romântica mas também como podia um soturno, macilento e crepuscular compositor de lânguidos e sorumbáticos Nocturnos, atrair tantos dos mais desejados braços e peitos femininos da melhor sociedade europeia de então. Neste caso, não para um nocturníssimo e alucinante fim-de-semana em Marrocos ou Miami com Cristiano Ronaldo, mas para merecer a honra e orgulho de guardar para sempre o último e infecto sopro vital de um amargurado criador.