08 fevereiro, 2016

AUTO-AJUDA SEM CORANTES NEM CONSERVANTES


Enquanto lhe preparavam a cicuta, Sócrates pôs-se a aprender uma ária na flauta. "Para que te servirá?" perguntaram-lhe. "Para saber esta ária antes de morrer". Cioran

Um dos clássicos apresentados por Calvino no já clássico Porquê Ler os Clássicos?, é o famoso Robinson Crusoe, publicado no longínquo ano de 1719. Apesar de o escritor italiano o considerar um «diário das virtudes mercantis» e outros um manual de ética protestante, a verdade é que foi publicado com o estatuto de literatura menor e comercial, tendo como leitores, soldados, taberneiros ou mulheres de baixa condição, tudo pessoal pouco dado aos clássicos gregos e latinos. Sim, as aventuras solitárias de um vulgar marinheiro de York numa ilha exótica está muito longe da mítica solenidade de um Filoctetes abandonado em Lemnos.

Se eu fosse cristão nunca seria católico mas protestante. E não se trata de gostar da luz setentrional, tão amiga dos meus olhos, de achar o dinamarquês uma língua sensual ou de preferir a timidez da Liv Ulmann ao sangue na guelra da Anna Magnani, mas de razões teológicas, ainda que certamente de menor importância face às anteriores. Seja como for, mais razão para aqui, menos razão para acolá, deve ter sido o meu lado buddenbrookiano que me fez logo começar a pensar no que fazer com o Robinson Crusoe agora que o reli (como diria Calvino, um acto vocacionado para os clássicos), mais de 40 anos depois.

O primeiro relâmpago que me alumiou o espírito foi pensar que num país tão obcecado pelo empreendedorismo e onde o sermão empreendedor tende a adquirir o estatuto de grande clássico, relegando o padre António Vieira para uma espécie de ilha de Lemnos onde ninguém passa, à excepção dos que são obrigados por exigências curriculares, seria vantajoso levar os jovens portugueses a ler o diário, escrito ao longo de quase 28 anos por um verdadeiro empreendedor que transformou uma inóspita ilha numa espécie de empresa-nação, conceito capaz de comover uma parte importante da nossa classe política, embora mais na vertente nação-empresa. Mas como verdadeiro empreendedor mental que sou, nunca me dando como verdadeiramente saciado, embora quase sempre a descambar para a parvoíce, ousei ir mais além. E sendo hoje tão fértil o terreno da auto-ajuda, merecendo a desesperada procura de tantos penitentes, entre os quais se inclui este escriba de triste figura, levou-me o bom senso a eleger o diário do nosso náufrago como privilegiado manual de auto-ajuda, neste caso, por via do exemplo e não da teoria ou do seminário intervalado por animados coffe-breaks. Um diário ao qual deu o sugestivo título de «A Ilha do Desespero», que permite entender que precisa mesmo de ajuda, e esteticamente bem mais apurado do que «O Poder do Agora», «100 Maneira de Se Motivar a Si Mesmo», «Nunca Desista de Seus Sonhos» ou «Você Pode Curar Sua Vida».

E não é apenas por razões de decoro estético, passe a redundância. Claro que o primeiro estado de espírito do náufrago na sua nova ilha é o desespero e angústia: «Mergulhei numa angústia indescritível, e durante algum tempo corri de um lado para o outro, como um louco». Pronto, é normal. Mas se a angústia é um estado normal, já não o será nele permanecer eternamente. Eu não sou católico nem preciso de conhecer as virtudes teologais para reconhecer a importância da esperança como virtude. E esperança foi o que sentiu Robinson a partir do momento em que arregaçou as mangas para passar à acção. João teria as suas gregas razões para que no seu Evangelho ficasse registado que no início é o «Verbo». Não mais fortes, porém, do que as prussianas razões do Fausto quando por lá se diz que no início é a «Acção». Tendo quase a certeza de que Benjamin Franklin leu o diário de Robinson, bem posso arriscar a ideia de ter-se ele lá inspirado para vir dizer que «Bem feito é melhor que bem dito», estando até à vontade para isso devido à sua dupla faceta de escritor e cientista. 

E  o que conduziu Robinson à virtude da esperança?: «A esperança de conseguir as coisas que me eram necessárias servia-me de aguilhão para levar-me a fazer coisas que, noutras circunstâncias, seria incapaz de fazer». Eis um belo círculo vicioso, mostrando que nem todo o vício é desprezível: a esperança conduz à acção, quanto mais se faz mais aumenta a esperança, e quanto mais aumenta a esperança mais se faz. Daí o seu lema «fazer, fazer, fazer», não estar parado, não ficar a morder a língua enquanto se contempla o vazio do oceano. E por falar em vazio do oceano que, apesar do contraste entre o absolutamente seco e o absolutamente molhado, não deve andar longe do vazio do deserto, Nietzsche, como ratinho de biblioteca que era, apesar de ter vergonha de o confessar, também deve ter lido o diário de Robinson (uma característica fascinante dos clássicos é serem lidos por outros clássicos), devendo ter achado piada ao facto de a única inquietação metafísica do náufrago ter sido o resultado de uma doença que o abalou e enfraqueceu, tanta física como mentalmente: «O que é a terra? O que é o mar, sobre o qual tanto naveguei. Como foram estas coisas produzidas? O que sou eu próprio? O que são as outras criaturas humanas e brutas, domesticadas e selvagens? Qual foi a nossa origem?» Eis uma inquietação supérflua num registo de sobrevivência, um luxo de gente rica e mesa farta como disso foi acusado Arthur Schopenhauer com o seu pessimismo blasé.

Exceptuando esse introspectivo e melancólico momento de fraqueza, a ressurreição de Robinson deveu-se a fazer, organizar, criar regras que nunca tinham sido pensadas, novas rotinas, transformar a ilha num pequeno cosmos ordenado, criar uma hierarquia de necessidades, fazer da construção de uma gaiola para um papagaio assunto da maior importância, saber dar valor ao que tem valor e não dar valor ao que não o tem (quando voltou numa canoa ao navio naufragado, deu toda a importância a uma caixa de ferramentas e muito pouca a uma caixa com dinheiro), aprender a ter orgulho nas suas capacidades, sabendo que só se pode orgulhar delas se as puder ver, reconhecer a sua nova identidade, tanta física como mental e aprender a viver com ela, apesar da mais do que quixotesca triste figura que assustaria qualquer habitante da sua York. Por fim, mas não menos importante, lutar contra o «medo», «pensamentos bizarros» que lhe assaltem o espírito, «ideias loucas» ou uma «imaginação [que] só excitava em mim ideias tristes e terríveis», fazendo lembrar com isto as sábias advertências de um holandês chamado Bento Espinosa (Baruch para os amigos e vizinhos ou Benedictus para os leitores, uma trindade onomástica talvez em homenagem aos antepassados ibéricos) cuja Ética, se desse para ler na praia entre dois mergulhos, também poderia ser um excelente manual de auto-ajuda.

E tudo isto para quê? Apenas para viver e viver da melhor maneira possível, mesmo sabendo que um dia irá morrer. Ou sobretudo por saber mesmo que um dia irá morrer. Robinson Crusoe recomeçou a sua vida numa «Ilha do Desespero» mas saiu finalmente de lá a tocar a mesma ária de Sócrates. Não viveu no melhor dos mundos possíveis, nem de longe nem de perto mas, quase 28 anos depois, é caso para dizer que não deve ter dado o seu tempo por mal empregue.