06 fevereiro, 2016

A VIELA


Porque estão tão felizes e festivos estes jovens, descendo a Gran Vía, corria o ano de 1931? Festivos é mesmo a palavra mais certa pois festejam a proclamação de uma segunda república, depois de uma primeira de um ano e tal ainda no século XIX. Uma alegria e festividade imobilizada para sempre pela câmara do grande Marín, Luis Ramón Marín, que tantas imagens nos deixou de uma Espanha mesmo aqui ao lado mas tão diferente de nós. Como se deixasse de haver tempo antes e depois desta alegria. Estes jovens riem porque são ingénuos. Acreditam, ainda para mais sendo jovens, que são o princípio de uma coisa que vai começar ou o fim de alguma coisa que acabou. Ao contrário de Steiner, em Gramáticas da Criação, ainda acreditam em começos, descendo assim a Gran Vía com a mesma solenidade com que o escriba medieval inicia um novo capítulo do seu manuscrito: com um magnífico e colorido desenho, que tanto pode ser de um dragão matinal ou um profeta.

Mas fossem eles profetas como o desenho do escriba medieval e conseguissem ver o tempo um pouco para além da poeira dos dias, semanas e meses levantada pelo seus pés enquanto caminham, não teriam grandes motivos para festejar. Foi bonita a festa, pá, mas, pouco depois, as nuvens adensaram-se sobre a Gran Vía e toda a Espanha, anunciando a grande tempestade. Não sei se estes jovens morreram ou sobreviveram. Espero que tenham sobrevivido, antes de mais porque estar vivo será sempre melhor do que estar morto como explica Aquiles a Ulisses quando este o encontra depois de descer ao Hades para Tirésias lhe indicar o caminho de regresso a casa. Mas também para perceberem que os começos e os fins são sempre relativos e circunstanciais. A Grand Vía foi construída para ser uma grande, larga e quase recta avenida de Madrid, tendo essa construção sido, só por curiosidade, também fotografada por Marín, em 1922. E estes jovens, de facto, descem a Grand Vía, sentindo que a sua história é grande, larga e quase recta como sempre acreditaram revolucionários e utopistas ou apenas crentes no contínuo progresso. Mas não, a história é mais parecida com o desenho urbano do tempo dos escribas medievais: um emaranhado de ruas estreitas, cotovelos, becos e vielas, sem princípio nem fim.