04 fevereiro, 2016

A PASSADEIRA

Ferdinando Scianna | Sicilia, 1987

Numa rua de Torres Novas, uma velhinha queria atravessar uma passadeira mas os carros não paravam para a deixar passar. Entretanto, havendo uma aberta lá arriscou uma travessia, mas com os carros a desviarem-se, sem parar. Se a velhinha em vez de ser uma velhinha fosse uma jovem giraça, muito provavelmente alguns condutores, todos homens neste caso, teriam parado. Tivesse sido isto há 50 anos, a velhinha de hoje bem poderia ter sido então a jovem giraça que nascendo 50 anos depois, talvez fizesse hoje parar os automobilistas em vez de não parar. E se os automobilistas de hoje tivessem nascido há 50 anos, muito provavelmente teriam hoje dificuldade em atravessar uma passadeira por causa de jovens automobilistas que não parariam os carros pelo facto de os primeiros serem velhinhos.

A vida é feita de muitas coisas, entre elas, encontros e desencontros. É como nos filmes. Por uma unha negra há encontros na mesma esquina do tempo, por uma unha negra, desencontros. E há desencontros numa passadeira porque pessoas nasceram 50 anos antes ou 50 anos depois. Se os jovens automobilistas de hoje tivessem nascido 50 anos anos ou as velhinhas de hoje tivessem nascido 50 anos depois seria diferente o encontro na passadeira. Mas enquanto continuarmos a pensar que o tempo não é uma ilusão e a não compreender que a vida é um labirinto cujas paredes separam ilusoriamente do passado e do futuro, não vivendo as pessoas num eterno presente, haverá sempre jovens automobilistas que não irão parar nas passadeiras ao verem uma velhinha, não só por já fazer parte do passado onde eles nunca estiveram mas também por já ter pouco do futuro que eles ainda irão ter. E enquanto assim for, sempre que houver velhinhas a atravessar passadeiras diante de jovens automobilistas, as naturais inclinações do ser humano, feitas de emoções, sentimentos, desejos, motivações, interesses, irão sobrepor-se aos princípios morais que devem fazer olhar imparcialmente para todos os seres humanos. E se em vez da velhinha for uma jovem e giraça, será exactamente a mesma coisa. Se o condutor pára, não é pela legalidade (código da estrada) ou moralidade (consciência e responsabilidade moral) do seu acto. O motivo por que pára é oposto ao motivo por que não pára, mas feito da mesma fibra. Uma fibra bem resistente.