31 janeiro, 2016

URSO POLAR


Annie Leibovitz | O Meu Irmão Philip e o Meu Pai, 1988

Num documentário sobre José Rodrigues Miguéis, dizia a cientista Maria de Sousa, sua  amiga, que ele vivera a terrível angústia de envelhecer, mantendo ao mesmo tempo o espírito jovem. Cada caso é um caso e cada um sabe de si, mas talvez valha a pena enfrentar a ideia banalizada de que será benéfico manter um espírito jovem ao longo de toda a vida, condição importante para desdramatizar o envelhecimento. 

Pelo contrário, faz sentido pensar que envelhecer será menos dramático se também envelhecermos mentalmente. Pronto, envelhecer nunca será bom e não vale a pena dourar a pílula: o corpo muda para pior, a saúde fica mais frágil, a vitalidade física vai-se esvaindo. Como diz Philip Roth, a velhice não é uma batalha, a velhice é um massacre, ainda que, no caso dele, acabe por se tornar numa fonte de inspiração para escrever livros duros e pessimistas. Ainda assim deve ser bom poder olhar para o seu corpo e perceber que aquele é mesmo o seu corpo em vez de um corpo que não lhe pertence, que detesta e que é obrigado a suportar. Passando o exagero, é assim um bocadinho como os transexuais que têm a cabeça de um sexo e o corpo do outro. Ou como o corpo para o cogito cartesiano, uma coisa cuja natureza física ou extensa o remete para uma ordem completamente alheia à de uma coisa pensante. 

Ora, se o espírito estiver em sintonia com o corpo, será  bem mais fácil aceitar todos os sinais exteriores e interiores de envelhecimento. Não quer isto dizer que o espírito deva ser velho como o corpo para poder encarar a velhice como uma festa que nos faz olhar para o passado como tempo estúpido e inútil. Nada disso. Acontece que o espírito, não sendo físico, não pode exibir os mesmos sinais do corpo. Um espírito envelhecido é um espírito assolado por doenças e isso não é coisa que se deseje. Não, saber envelhecer, neste sentido, é saber pensar, sentir, imaginar, questionar, aprender, desejar, decidir, agir, não como um jovem mas como um velho, o que é completamente diferente. Mau, porque revelaria um espírito envelhecido, será um velho deixar de sentir, imaginar, questionar, aprender, desejar, decidir e agir. 

Dizia Platão, no Fédon, que as almas foram feitas para o supra-sensível e os corpos para o sensível. Queria ele dizer, ao contrário do seu famoso aluno Aristóteles, que uma alma está num corpo como um colibri no Polo Norte. Era assim que se devia sentir José Rodrigues Miguéis no seu corpo de velho: um alegre, jovial e primaveril colibri na gelada e asfixiante brancura do Polo Norte. Em vez de um urso polar, para poder morrer como um urso polar.