17 janeiro, 2016

TABACARIA

Gerard Pietrus Fieret

Estamos todos fartinhos de passar por isto: saber que devemos fazer uma coisa, porque é o melhor, mas acabamos por fazer uma outra pior. Chama-se a isto «acrasia»: fazer o contrário do que racionalmente acreditamos ser melhor. Por razões óbvias, está associada a um estado de fraqueza e impotência. Quem sofre de acrasia, supostamente erra, pois faz o que sabe que não quer fazer ou não faz o que sabe que seria correcto fazer. Mas será mesmo assim? 

Eu abro um chocolate, sabendo que só deverei comer 3 quadradinhos. É isso que me diz a razão, o que me diria um nutricionista, o que me diz o raio da balança. Sei tudo o que é possível saber para desejar desejar não o comer todo (não é gralha, é mesmo «desejar desejar»). Mas eu abro o chocolate e como-o todo, desejando, afinal, o que não tinha desejado desejar. Mas terei sido fraco, impotente, um choninhas sem força e carácter? No fundo, lá mesmo bem no fundo, eu não terei mesmo desejado desejar comer todo o chocolate em vez de desejar desejar apenas 3 míseros quadrados? Terei mesmo padecido de um estado de acrasia? 

Uma máquina numa fábrica tem uma função muito precisa, sei lá, produzir 50 parafusos por minuto. É para isso que foi projectada, a sua obrigação, o que o empresário espera dela. Se fizer outra coisa como produzir 30 parafusos ou estes saírem tortos, estamos perante uma anomalia: a acção da máquina não está de acordo com o que foi racionalmente projectado pelo engenheiro e desejado pelo empresário. Falhou. Mas não é isso que acontece com os seres humanos. Nós não somos máquinas divididas entre o melhor e o pior. Há gradações. E gradações das quais temos consciência e presumimos controlar. Haverá com certeza pessoas que sofrem de acrasia: aquelas que, em situações radicais, extremas, desejam mesmo desejar certas coisas por serem as melhores mas depois desejam fazer as que são realmente muito, mas mesmo muito, piores. Mas, muito provavelmente, na maior parte dos casos, e sem que demos bem conta disso, fazemos um cálculo utilitarista, do género «o prejuízo em fazer uma coisa que racionalmente sei que não deveria fazer é inferior ao prejuízo por deixar de a fazer, ou o benefício por fazê-la é superior ao benefício por não a fazer ou ao prejuízo por fazê-la». 

Se um fumador soubesse que, por fumar um maço por dia, iria ter (ou a possibilidade ser fortíssima) nos anos seguintes um cancro de pulmão ou um enfarte, muito provavelmente não iria fumar. É isso que acontece com muita gente que apanha sustos: deita o maço fora e nunca mais volta a fumar, tendo resolvido de vez uma «acrasia» de anos. Mas o fumador sabe que não vai necessariamente ter uma morte precoce por fumar. Pode fumar e morrer tarde, e até por uma causa alheia ao tabaco. Sabe que muito fumador morre sem ser de cancro e que muita gente que morre com cancro nunca fumou. Pronto, sabe que fumar faz mal, sim senhor, mas que não há uma relação causa-efeito óbvia e imediata entre fumar e morrer. Sendo assim, se gosta de fumar, se tem prazer em fumar, se a ideia de viver sem fumar o confrange, deseja não só fumar como também deseja desejar fumar, ainda que, racionalmente, assuma desejar desejar não fumar. Sendo assim não se trata verdadeiramente de acrasia, de uma falha na vontade mas de escolher livremente entre duas coisas que desejamos desejar, se bem que uma seja racional e ponderada enquanto a outra é mais espontânea e menos assumida. E o mesmo se passa com o chocolate que como inteiro. Eu não como o chocolate e fico imediatamente inchado e com a roupa a deixar de me servir. Isso aconteceria se eu comesse um chocolate inteiro todos os dias. Mas neste caso já sofreria de uma compulsão, uma doença, perdendo o meu livre-arbítrio e, como tal, deixando de poder fazer o contrário do que desejo fazer.

Como diria Pascal, o coração tem razões que a razão desconhece. E ainda bem. A minha boca que o diga depois de ter comido o chocolate inteiro que a minha razão, o nutricionista e a balança me dizem para não comer. Ou, como diz o povo, que por vezes consegue ser sábio, perdoa-se o mal que faz pelo bem que sabe. Isso não é acrasia, é saber viver. A menina, o Esteves e a filha da lavadeira que o digam.