29 janeiro, 2016

RAYUELA


[...] um mundo onde te movias como um cavalo de xadrez que se move com uma torre que se move como um bispo. Julio Cortázar, Rayuela

Se eu tivesse lido esta frase aos 20 anos, veria nela uma espécie de código para a vida. Mas isso era numa idade em que gostava de tudo o que implicasse uma inversão dos valores, da subversão, da desordem. Eu gostava muito das canções de Leo Ferré mas também gostava muito do anarquista Léo Ferré. Um dia, ouvi-o dizer (ou de ler, já não me lembro), que dois mais dois são quatro mas se fossem cinco seria bem mais interessante. A piada que eu achei a isto, dois mais dois serem cinco, só pelo prazer de desconstruir, de subverter, de alterar códigos inexoráveis e logo na Matemática, o mais constringente de todos os saberes. Mas leio hoje esta frase e sou apenas tocado pelo seu impacto poético. Na verdade, uma bela frase. Mas quando entramos no ocaso da vida já não nos podemos dar ao luxo de subverter. A destruição é um luxo juvenil que se torna demasiado caro quando a ave de Minerva inicia o seu voo crepuscular. A liberdade céptica de outrora tem que dar lugar a uma espécie de «sabedoria mínima», uma sabedoria feita de poucas coisas mas que sejam um chão firme para o que resta viver. Seja ao pé coxinho ou com os dois pés, há que saber assentá-los bem no chão para evitar entorses. Por isso mais vale não inventar: um cavalo move-se como um cavalo, uma torre como uma torre, um bispo como um bispo.