11 janeiro, 2016

OUVIR COMO JESUS OUVIU

George Dussaud | Douro, 1989

Devo tanto algumas épicas vitórias a Jorge Jesus como ele me deve a mim algumas ignominiosas derrotas. Estamos assim pagos, o que favorece a minha imparcialidade em relação a tudo o que lhe diga respeito, nomeadamente esta polémica. Critica o autor de Como o Macaco Gosta de Banana o gosto musical de Jorge Jesus por este gostar de cantores como José Malhoa (só por ser o demiurgo das pernas de Ana Malhoa já me merece todo o respeito) ou Tony Carreira, agindo face a este Jesus de um modo bem diferente do que face ao outro Jesus, que também dava as duas faces mas era no mesmo sentido.

Este arrufo é recente mas a conversa já é antiga. Sobretudo no século XX, com a criação de uma importante classe média emergida de sectores mais baixos da sociedade, dividida entre os horizontes da alta cultura e as tentações primárias da cultura popular, dando assim origem a um mainstream cuja identidade é bem mais híbrida e volátil do que a da cultura erudita. Daí o choque não ser apenas entre cultura erudita e mainstream cultural mas dentro do próprio mainstream, pelos vários e conflituosos níveis que aí podemos encontrar.

Há na frase de José Cid uma noção que me faz logo levantar as orelhas: o critério. Diz o compositor e cantor de «Favas com Chouriço» que «os critérios musicais de Jorge Jesus deixam muito a desejar». Eis a magna questão: o critério. Obviamente que o compositor e cantor de um Grande, Grande Amor, tem todo o direito de não gostar do que gosta Jorge Jesus, do mesmo modo que outros têm o direito de não gostar de favas com chouriço, não da canção mas da comida propriamente dita. Mas em que platónico mundo inteligível foi o cantor ribatejano desencantar (juro que não é um trocadilho parvo, saiu mesmo assim) os critérios que lhe permitem criticar os gostos musicais de Jorge Jesus? 

Podemos considerar objectivo o facto de a 5ª sinfonia de Mahler ser musical e esteticamente mais rica do que o Meta Meta no Forró? Sem dúvida, e estou certo de que será o próprio José Malhoa, que parece ser um homem sensato, a concordar. Pronto, e daí? A música, ao contrário da ciência, não é um campeonato onde se disputa a presença num pódio. Há teorias científicas melhores e teorias científicas piores porque umas são mais verdadeiras do que outras e isto é assim porque existe um referente que determina o valor de verdade da teoria. Se a água for composta por hidrogénio e oxigénio o juízo científico que o afirma deve ser aceite, sendo rejeitado como inválido aquele que o nega. Daí uma boa teoria poder (e dever) anular uma má teoria.

Mas na música? Terá a música um referente que permita dizer que uma é melhor do que a outra, que uma pode anular a outra? É isso que José Cid quer dizer quando critica os critérios musicais de Jesus. No fundo, está a dizer que ele não deveria ouvir Tony Carreira ou José Malhoa. E se não se deve ouvir as canções deles (presumo que o que é válido para Jesus será válido para toda a humanidade), isso quer dizer que a música de Tony Carreira e José Malhoa não deveria sequer existir. Insisto, existem referentes musicais objectivos que permitem, de um ponto de vista técnico, distinguir as músicas. Acontece que não existe uma música ideal como existe, em teoria, uma ciência ideal, uma vez que a música pode ter funções sociais completamente distintas. A música que se ouve num bailarico ou no Pavilhão Atlântico para alegrar mulheres histéricas não é mais verdadeira ou falsa do que um prelúdio de Bach no Grande Auditório da Gulbenkian onde toda a gente está com ar muito sério e compenetrado. Podemos comparar Bach e Handel, Beethoven e Schubert. Mas comparar Bach e José Malhoa, ou mesmo dentro de um mainstream popular, comparar Pedro Abrunhosa e José Malhoa ou os The Gift com Tony Carreira, não faz sentido. Se na ciência eu quero uma teoria verdadeira, devo escolher a A em detrimento da B. Se eu quero o melhor partido para governar o país, devo escolher o A e não o B (embora aqui a escolha seja assaz complexa). Se eu preciso de ferro no organismo, devo comer agriões em vez de tomate. Mas quem ouve José Malhoa não procura o que procura quem ouve os The Gift e quem ouve estes não procura o que procura quem ouve Bach. Não existem pessoas que ouvem certas músicas porque essas músicas existem. Não, essas músicas existem porque existem pessoas que as querem ouvir. E se as pessoas são todas diferentes, sem serem melhores ou piores, o mesmo se passa com as músicas que as ajudam a ser diferentes.

Musicalmente falando, o bom ouvido não é aquele que está dogmaticamente fechado no seu próprio universo. O bom ouvido é aquele que sabe ouvir tudo o que existe, não para necessariamente gostar mas pelo menos para compreender.