21 janeiro, 2016

O SUPER-HOMEM


Gosto de pensar que a vida é um labirinto cujas partes estão todas ligadas entre si. Pode ser uma ideia parva mas é uma parvoíce com piada. A verdade, essa é que é essa, é já ter tido um dia essa experiência quase mística do inefável labirinto onde vagueamos sem saber como e porquê: ver encontrarem-se dois pontos bem distantes entre si, sugados por um remoinho místico.

Tinha o meu filho uns seis ou sete anos quando fui dar com ele a explorar as melodias do meu telemóvel para os toques de chamada. Descobria uma, mudava para outra, um vendaval de melodias sem fim. Até que houve uma que voltou a repetir. Repetiu, repetiu e já dali não saiu. Era o início da célebre ária das Valquírias chamada Hojotoho! Heiaha, que em português pode ser precisamente traduzido por Hojotoho! Heiaha!. Para quem não está a ver muito bem o que é, basta lembrar o Apocalipse Now e o épico ataque a uma aldeia vietnamita ao som de uma música marcial, vinda dos helicópteros, como se estes fossem umas matronas escandinavas de tranças loiras a cuspir gafanhotos de napalm enquanto cantam.

Vendo o meu filho tão entusiasmado com a música e estando o som roufenho do telemóvel a começar a irritar-me, decido ir à estante dos CD’s para lhe dar o prazer de uma audição mais melómana. E como a música de Wagner não é propriamente a smooth music de um centro comercial às 9 da manhã, resolvi pôr a aparelhagem em altos berros, como se a casa da minha vizinha de baixo fosse uma aldeia vietnamita e eu e o meu filho estivéssemos a sobrevoá-la furiosamente com capacetes vikings enfiados nas cabeças.

A reacção do pequeno foi imediata,  tal como o espontâneo movimento de um rabo de lagartixa acabado de se separar: saltos e mais saltos, gesticulação frenética, expressões de êxtase como numa dança ritual de magia negra no Haiti. Acho que só não começou a revirar os olhos e a espumar pela boca porque eu ia tendo que parar a música para voltar ao início, o que levava naturalmente a uma perda de intensidade neurológica e de pathos.

Wagner, o autor da música, chegou a ser idolatrado há mais de cem anos por Nietzsche, que via na sua música uma expressão artística da sua ideia de super-homem. O homem europeu civilizado é filho da razão, do conhecimento, da moral, da repressão dos instintos. Tudo coisas que para o filósofo alemão nos enfraquecem, amolecem os sentidos, entristecem, e que o super-homem iria superar. O super-homem, tal como é apresentado no Assim falava Zaratustra, representa a força, a aceitação da vida tal como é, a antiga coragem dos trágicos gregos que diziam sim à vida mesmo com toda a carga absurda e sem sentido que ela comporta. O instinto em vez da razão, o conhecimento da força em vez da força do conhecimento, o corpo em vez da alma, o prazer em vez da moral, a natureza em vez de um etéreo mundo supra-terreno que leva ao nada. Daí que Nietzsche, quando jovem (depois passou-lhe), visse na dionisíaca música de Wagner, o pulsar do coração do seu profético super-homem.

Ora, enquanto o corpo dele se contorcia convulsivamente ao som de Wagner, delirante, enérgico, viril, fora de si, ajudando a destruir os meus sofás com frenética veemência eu, gritando para poder ser ouvido, perguntei-lhe, tal como Sócrates a Ménon, o que lhe fazia lembrar aquela música para ele ter assim aquela reacção, digamos, irracional e insana. E ele, com o ar mais natural deste mundo, respondeu: o super-homem. Naquele momento pensei que o meu filho era bem capaz de ser a personagem de um livro que estivesse a ser pensado por Borges num qualquer Aleph escondido num ponto oculto do universo.