30 janeiro, 2016

O SOM E A FÚRIA

Mestre Horácio Novaes, 1943

Uma das pragas urbanas, e que me deixa especialmente furioso, é ter gente a tocar nos centros históricos das cidades. Há quem se entusiasme com tal animação musical com o pretexto de que dá cor, vibração, alegria e vida a uma cidade. Lá isso é verdade, sobretudo no que toca à vibração, pela mesma razão que os grafites também dão cor, alegria e vida a uma monótona parede branca. Convém porém lembrar que, apesar de termos cada vez mais as cidades transformadas em disneylândias turísticas, uma cidade não existe como sala de espectáculos para a pessoa se animar com a cor e a alegria da música. Para isso existem as salas de espectáculos, ou em circunstâncias especiais e perfeitamente legítimas, festas populares ou eventos públicos de cariz musical como passagens de ano e assim. 

Se caminho numa cidade porque foi aquela que elegi para caminhar, tenho o direito de aí estar enquanto cidade e não enquanto sala de espectáculos. Cada cidade tem a sua identidade sonora e a sua natural vibração acústica, como tem os seus cheiros, a sua luz, as suas cores e formas. E se pago para ir a uma cidade, nem que seja 10 euros de gasolina, é para a usufruir enquanto tal e não enquanto cidade atomizada em micro-palcos para qualquer pessoa tocar a fim de exibir os seus magníficos dotes musicais ou como fonte de rendimento, e cujas músicas invadem, com bárbara e fascista violência, o som natural da rua, da praça ou da esquina. Considerar que a música vem dar animação à cidade é considerar que a cidade não se basta a si própria. Lembra aqueles casais que no carro levantam o som do rádio para poderem não falar sem sentir o peso do silêncio ou os velhinhos que metem a televisão bem alto para disfarçar a solidão.

Como em tudo, também nisto não sou radical. No Porto, indo pelas rua das Flores abaixo e, à porta de um modesto café numa das suas ruazinhas laterais, fui dar com um homem e uma mulher, com ar castiço, ele já um tanto entradote, a cantar fado à desgarrada. Claro que se formou logo ali um enxame de turistas, deliciados com o espectáculo, a tirar as inevitáveis fotografias para o facebook. Eu, que até nem gosto de fado, achei piada. Estamos em Portugal, é fado e nem estavam ali a dar formalmente um concerto. Na Royal Mille de Edimburgo, entre o castelo e o museu do whisky, talvez ainda lá esteja o mesmo homem, com traje escocês, a tocar gaita de foles. Não sei se foi por estar com a camisola de turista, apreciei a atmosfera criada por aquele instrumento. Seja como for, não era invasivo e aquele som tinha tudo que ver com aquela cidade, aquela rua, aquele país. Tal como ouvir um acordeão em Paris ou em frente ao Scala de Milão poder ouvir alguém a cantar umas árias de Verdi, mesmo que não emerja espontaneamente das entranhas da cidade como o som de um eléctrico que passa. Longe, muito longe de passar pela dolorosa e cacofónica experiência de atravessar a rua de Santa Catarina ou a Ribeira do Porto, começando por apanhar bossa-nova, mais à frente alguém a tocar jazz e metros adiante ser atacado por uma qualquer mexicanice ou um rocker mal amanhado a cantar um êxito de Brian Adams ou de Joe Cocker. Ou estar tranquilamente sentado na Brasileira do Chiado, assistindo a um concerto de flautas incas ou aztecas com outros instrumentos plastificados a serem vomitados por uma coluna esganiçada

Esta minha aversão à música em espaços públicos nada tem que ver com os meus gostos musicais. Não sou egocêntrico e não digo bem ou mal em função dos meus gostos pessoais. Eu gosto de música clássica, mas se em vez dos incas ou aztecas do Chiado estiver um grupo de estudantes do conservatório a tocar Mozart direi o mesmo. É verdade que não sou grande apreciador de Mozart mas se for em Salzburgo, como Verdi em Milão, embora considere dispensável, e até evitável, consigo compreender. Mas fossem do meu agrado os putativos clássicos mini-concertos do Chiado ou da Ribeira do Porto, e diria a mesma coisa.

Só uma vez dei uma moeda. Foi em Madrid, na principal rua que liga a Plaza del Sol à Grand Vía, uma das mais movimentadas da cidade. Era quase meia-noite e a rua estava vazia. De pé, uma senhora idosa, humildemente vestida mas com uma nobilíssima expressão no seu rosto de belos e finos traços, tocava uma sonata de Bach. Exausto, depois da azáfama do dia, numa rua onde horas antes se circulava com dificuldade num enxame de gente, ouvir aquele som divino a abraçar o silêncio da noite, graças ao engenho artístico daquela mulher, foi uma experiência quase onírica. Parei, ouvi um pouco, deixei-lhe um euro no pano, ela inclinou a cabeça como gesto de agradecimento e continuou a tocar numa cidade que não a ouvia. Se calhar, durante o dia, não teria deixado a moeda até porque já havia passado por músicos que tocavam música do meu agrado. Naquele momento, porém, senti que estava a entrar noutra esfera da existência antes de adormecer e de regressar de novo à cidade no dia seguinte.