25 janeiro, 2016

O ROSTO E AS MÁSCARAS




A vida íntima é cheia de passagens ridículas. A gente, que escreve casos tristes, se lhes não joeirasse a parte cómica, não arranjava nunca uma tragédia. Camilo Castelo Branco, Maria Moisés

Eu com a filosofia sou assim um bocadinho como a roupa velha do cozido à portuguesa: aproveita-se tudo. Clássicos, modernos, analíticos, continentais, racionalistas, empiristas, medievais, neo-tomistas, primeiro Wittgenstein, segundo Wittgenstein, existencialistas, positivistas, estruturalistas, monstros sagrados como Platão, Aristóteles ou Kant, gente pouco conhecida como Vico, Hamman ou Alain. Nem que seja numa recôndita linha da mais obscura das obras, alguma coisa há-de sempre se aproveitar, o que explica eu não deitar Heidegger para o caixote do lixo como muitos fazem com analítica repugnância.

Fiquemos então com o filósofo alemão. Heidegger diferencia «medo» e «angústia». Ter medo é ter necessariamente medo de alguma coisa, sei lá, de ficar sem emprego, de um rato, de um terramoto, de Bruno de Carvalho. A angústia, pelo contrário, não tem objecto. Sente-se angústia perante o nada, ou o mundo como totalidade que se torna assim um lugar estranho que confronta o indivíduo com a sua «autenticidade», conceito que lhe é caro. É deste modo que se dá uma tensão ontológica entre a difícil «autenticidade» que tanto nos escapa e a «inautenticidade» em que facilmente caímos. Daí a fuga no «mundo factual» e numa permanente actividade como terapia para a angústia: o mundo do trabalho, o falatório, a curiosidade, a vidinha, o divertimento, a vida pública à qual o filósofo chama «a publicidade do impessoal». Tudo estratégias existenciais para fugir ao terrível encontro com a morte e com o nada.

John Cassavetes filmou Faces (1968) com a câmara ao ombro, circulando pelos rostos, pelos corpos, pelos objectos como se andasse meio perdida à procura deles. Uma filmagem que lembra aqueles gatafunhos visuais que se vêem num ecrã depois de uma criança ter andado com uma câmara a filmar, tendo a sua mão seguido espontaneamente o movimento do olhar, sem distanciamento, sem mediação, sem compasso de espera nas mudanças de perspectiva. No filme, as pessoas bebem, dançam e dizem disparates. Sobretudo, disparates. Pessoas tristes, infelizes, com as vidas desfeitas. E riem, riem, riem. Só perante a insinuação da morte emerge um fluxo de autenticidade a atravessar aqueles rostos que dão o nome ao filme. Momentos de alívio e de repouso por entre toda aquela orgia de risos e disparates que são o sangue e as vísceras do filme. Mas o seu momento chave é mesmo quando Richard diz a Jennie (uma Gena Rowlands linda de morrer): «Don't be silly. Just be yourself». Mas nenhum deles consegue.