16 janeiro, 2016

O PEQUENO SILÊNCIO

Gabriele Chiapparini | Sleepwalking, a film for Henry Cotton's [fotograma]

Como tenho uma péssima memória, preciso de sublinhar tudo o que gosto de ler. O lápis acaba por ser o meu traço mnésico, a bóia de salvação que me salva das águas profundas do esquecimento, sendo tão válido para um romance como para um ensaio. Por vezes, gosto de pegar num desses romances só para reler as passagens sublinhadas. É como ver os fotogramas de um filme há muito visto. O fotograma de um filme é como se fosse uma frase solta de um filme, um pedaço que ganhou autonomia face à complexidade do todo. Ora, é também isso que procuro sempre que vou em busca das frases sublinhadas de um romance.

Redescobri em Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, de Clarice Lispector esta frase sublinhada: «Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio, não para o silêncio astral». Lê-se isto e é logo o famoso §206 dos Pensées que vem à cabeça: «O silêncio eterno destes espaços infinitos apavora-me». O mesmo pavor que marcou o nosso Antero, um homem perdido na Terra e no Cosmos. Homem do século XIX, entendeu e aceitou a necessidade de uma visão mecanicista da da natureza e do universo. Mas, por outro lado, não era capaz de aceitar esse árido e atroz mecanicismo que reduz tudo a um insuportável silêncio: o silêncio escuro e gelado dos átomos e das moléculas, dos planetas, dos abismos cósmicos. Demasiado silêncio e demasiado frio. Não por acaso, e logo no mais filosófico dos seus textos (Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX)vai buscar este soneto de Leconte de Lisle :

                             Dieu, n'est plus! Tout est mort! J'ai parcouru les mondes,
                             Et j'ai perdu mon vol dans leurs chemins lactés,
                             Aussi loin que la vie, en ses veines fécondes,
                             Répand des sables d'or et des flots argentés:

                             Partout le sol désert côtoyé des ondes,
                             Des tourbillons confus d'océans agités...
                             Un souffle vague émeut les sphères vagabondes,
                             Mais nul esprit n'existe en ces immensités.

                             En cherchant l'oeil de Dieu, je n'ai vu qu'une orbite
                             Vaste, noire et sans fond, d'où la nuit qui l'habite
                             Rayonne sur le monde et s'épaissit toujours;

                            Un arc-en-ciel étrange entoure ce puits sombre,
                            Seuil de l'ancien cahos dont le néant est l'ombre,
                            Spirale engloutissant les mondes et les jours!


Ora, não é deste silêncio temido por Pascal e Antero que fala Lispector, assumindo que não fomos feitos para o silêncio astral mas para os pequenos silêncios. Que pequeno silêncio pode ser este? Uma película fina e quase imperceptível que se instala entre nós e o mundo, entre nós e os outros, que percorre suavemente a textura dos materiais de que é feita a vida. Uma película que envolve as próprias palavras quando falamos. Uma película que envolve a memória. pois quando pensamos no passado há sempre um silêncio que retira peso e densidade ao que outrora foi feito de matéria e sensações tangíveis. Uma película que envolve o mundo visível, seja nos campos ou nas cidades, um silêncio entre nós e o verdadeiro sentidos das cores, das formas, dos sons e dos cheiros. É por isso que há silêncio no urbano burburinho das cidades como há silêncio no próprio silêncio de uma noite campestre. Uma fina e invisível película que envolve os risos e as lágrimas, as alegrias, as tristezas ou até o próprio sofrimento.  O silêncio que há num rosto, o silêncio que há numa voz, o silêncio que há no riso, o silêncio que há na brincadeira, o silêncio que há num beijo, o silêncio que há num parto, o silêncio que há nos passos que se ouvem no interior de uma igreja, o silêncio que há no rebentamento de ondas enormes na quietude da areia. Na própria guerra há um silêncio que consegue mesmo abafar o poderoso e estridente som dos canhões e dos gritos de dor e desespero. Não por acaso o cinema recorre por vezes a esse registo em cenas de guerra. Desliga-se qualquer tipo de som para permitir uma espécie de revelação. E não por acaso também esse silêncio surge por vezes acompanhado de uma câmara lenta. A câmara lenta é uma espécie de silêncio visual, tendo como objectivo prender-nos melhor ao sentido de uma realidade que rapidamente nos escapa.

No fundo, trata-se de uma osmose entre as coisas materiais e o silêncio. Não é, pois, um silêncio exterior às coisas mas um silêncio entranhado nas próprias coisas. Aprender a ouvir este silêncio é aprender o pulsar da própria vida. E aí que devemos estar e pertencer.