24 janeiro, 2016

O FUTURO DE UMA ILUSÃO

Josep Brangulí

Não sei se a maioria das pessoas pensa muito nas coisas antes de as fazer. Eu faço as coisas e só depois é que penso nelas e na sua razão de ser. Acontece-me isso muitas vezes quando sublinho livros, incluindo romances. Ter a intuição de que vale a pena sublinhar uma coisa, de não querer perdê-la mas sem fazer ainda qualquer ideia da razão por que o faço

Hoje estava para ir não votar. Não só por não me apetecer sair de casa mas porque tinha decidido, caso o fizesse, votar em branco, não havendo assim grande diferença entre ir ou não ir. Uma das razões pelas quais tinha resolvido votar em branco era fugir de uma vez por todas ao perigo do remorso por votar em algo de que me venho a arrepender. Mas estando um dia bonito e não saindo de casa desde sexta-feira à tarde, resolvi dar um passeio até ao sítio onde voto só para despejar o papel na urna sem qualquer cruz que me crucificasse mais uma vez a asneada consciência. Saio de casa, entretenho-me um pouco numa feira de velharias que se realiza aqui uma vez por mês, mais adiante dou dois dedos de conversa com um familiar que encontro, até finalmente entrar na escola onde iria votar sem ter voltado a pensar no assunto, sobretudo pela mistura de desprezo e indiferença que me suscita esta eleição. É só quando pego no telemóvel para dar o meu número de cidadão ao cidadão que me dá o papelinho que decido votar num dos candidatos.

Resta-me agora tentar perceber por que razão escolhi aquele em vez de votar em branco. Talvez o consiga ainda hoje, sei lá, enquanto lavo a loiça do jantar, amanhã no duche ou daqui a três dias ao descer no elevador ou a caminho da escola. Poder-se-á dizer que é uma forma estúpida de decidir coisas tão sérias e importantes que mereceriam uma maior consciência e sentido de responsabilidade. Não digo que não. Mas também já tenho suficiente experiência de vida para saber que em quase tudo o pensamento é esmagado pela força da realidade e que, por isso, boas decisões podem ter péssimas consequências e más decisões boas consequências. O que verdadeiramente me surpreende, pelo menos no meu caso, não foi fazer antes de pensar. Foi ter mais uma vez arriscado, sabendo de antemão que posso mais uma vez errar. E isso permite-me entender uma coisa. Que prefiro falhar a nada fazer, que prefiro comprometer-me com um erro do que comprometer-me com coisa nenhuma. No fundo, assumindo que a realidade pode ser uma merda mas que não há outra, sendo com essa que tenho de viver e dela fazer parte. Pelo menos hoje senti-me um cidadão e não um idiota, no seu mais antigo sentido grego. Como idiota, já me basta o sentido moderno.