13 janeiro, 2016

MODO FUNCIONÁRIO DE VIVER

Paul Strand | Wall Street, 1915

Kant explicou, e bem, que de um ponto de vista moral a inteligência não é boa nem má. Uma coisa é a inteligência usada para criar medicamentos ou evitar uma guerra estúpida, outra é ser usada por um terrorista que organiza um atentado. E se recuarmos até ao Evangelho, quem vemos ser abençoados no Sermão da Montanha? E o que diz Jesus quando vai a casa de Marta e de Maria? E lembremos o modo como ele encheu a paciência aos Fariseus e Saduceus, homens de lei e de formalidades institucionais. Queria lá Jesus saber se a pessoa A ou B é inteligente. Não por acaso, a Filosofia Medieval é marcada pelo paradigma da vontade, não pelo da razão. Mas com a revolução científica do século XVII e os vários iluminismos que se seguem, a inteligência e a racionalidade sobrepuseram-se à vontade, tornando-se nas meninas dos olhos da modernidade.

Mas estamos a assistir a uma nova moda e com bastantes fiéis. Uma moda que, mantendo a valorização da inteligência, atribui-lhe uma vertente mais técnica e produtiva. Já não se trata da inteligência clássica alicerçada numa flexibilidade mental geral, na intuição, na experiência de vida ou, não menos importante, numa conjunção complexa de saberes, mas da bovina inteligência do funcionário alimentada pela palha do desempenho, das competências, dos objectivos, das metas, da produtividade, do empreendedorismoPodemos pensar que isto se aplica essencialmente a uma economia de mercado e sociedade onde o Estado se demitiu das suas responsabilidades políticas e morais, processo acentuado com a queda do muro em Berlim. Não. No marxismo já existem as sementes desta ideologia assim como nos regimes que se construíram em seu nome, dando origem a perversões bem mais graves do que as dou outro lado da cortina de ferro.

Claro que não é sermos boas ou más pessoas que faz de nós profissionalmente competentes. O que faz um tipo ser bom engenheiro, bom médico, bom operário, bom professor ou bom gestor não é ser boa pessoa; nem uma empresa, uma escola ou um hospital são instituições de caridade ou solidariedade social cujos membros são avaliados por critérios morais. Nem as pessoas trabalham para serem felizes nem o local de trabalho deve ser um espaço sem ordem e livre de regras e objectivos. Ninguém cria uma empresa para falir, os professores devem mesmo ensinar e os médicos curar. Portanto, se recuei até ao Evangelho não foi para chegar a conclusões tontas. Mas convém lembrar que é nesse mesmo Evangelho que está escrito, preto no branco, que o homem não foi feito para o sábado mas o sábado para o homem. Ora, centrar a vida profissional em critérios puramente economicistas, obcecados com a produtividade e com a eficácia, é pôr o homem ao serviço da economia e não a economia ao serviço do homem. Agora que se fala tanto, e bem, na nossa identidade cristã por oposição à islâmica, bem podíamos levar mais a sério o Evangelho em tanta coisa que tem sido esquecida.