18 janeiro, 2016

MIAU

Willy Ronis, Paris 

Lembro-me de estar uma vez a corrigir uns trabalhos e ter  reagido com surpresa à frase «os animais devem ser respeitados pois eles são seres humanos como nós», disparando logo um ponto de interrogação a vermelho por causa de tamanho disparate. Sendo isso há muito tempo, não me esqueci por causa do meu imediato arrependimento e opaca insensibilidade à subtileza retórica do aluno. Não sendo ele indigente, sabia muito bem que um animal não é um ser humano. Um cão é um cão, um gato é um gato, um ser humano é um ser humano. O que ele quis foi colocar seres humanos e animais num mesmo patamar moral e anímico (não gosto da palavra mas o seu sentido etimológico torna-a funcional) e daí o lapso que naturalmente não merecia um disparo daqueles, talvez apenas um simples smile só para brincar com a situação. 

Os animais não são seres humanos, sendo bem distintos os seus desempenhos cognitivos, espirituais e culturais. Nós fomos capazes de criar grandes obras de arte, deuses, palavras, casamentos, baptizados e funerais, teoremas, frigoríficos e a bomba atómica. Eles nada disso criaram nem irão criar. Mas fosse esse o critério e um prémio Nobel da Física, um grande pintor ou compositor teriam mais valor do que o Esteves da Tabacaria. Mais valor moral, mais valor psicológico, mais valor afectivo. Sendo assim, o Estado deveria proteger mais o prémio Nobel por ser mais inteligente. E seria mais passível de ser amado, devendo as pessoas gostar mais dele do que do Esteves. Mas não é isso que acontece. Porque nem o valor intrínseco de uma pessoa depende disso, nem o valor das relações entre pessoas. No território simples, básico, terreno, irracional, das emoções e sentimentos, o que conta não é a inteligência. Nos vínculos afectivos entre as pessoas, seja no amor, na amizade, nos laços familiares, o que conta é a espontaneidade dos afectos. Gosta-se porque sim. O sim de quem disse querer ser um dia apenas um daqueles seres que diz «sim» (Nietzsche, A Gaia Ciência, §276), esse mesmo que se agarrou ao cavalo em Turim por estar a ser maltratado pelo dono. E é esta primária inocência do sim, um sim sem razões, imotivado e gratuito, que liga, une, vincula. E neste território não há pessoas nem animais, rostos e focinhos, palavras e sons, inteligência abstracta e inteligência funcional. Apenas emoções. Um miau pode valer bem menos do qualquer palavra. Mas para aquilo que um simples miau pode significar nenhuma palavra será necessária.