20 janeiro, 2016

GEWÖHNLICHKUNSTWERK

Robert Doisneau | o Combate do Centauro, 1971

Perante uma ópera de Wagner o cidadão comum sente-se um anão sem gigantes para cujos ombros possa trepar para enaltecer a sua existência comum. Assistimos àquilo e pronto. É lá com ele, não connosco. Pode, todavia, ser salvo pela ópera italiana. Deixa de se sentir esmagado pelo sobrenatural peso de Wotan ou Brünhild  para se projectar em Mimi, Rodolfo, Musetta, Pinkerton, Falstaff, Rosina e Almaviva. O amor, o ódio, o ciúme, a traição, a ambição, a cupidez, a estupidez não são, na ópera italiana, mais do que uma esteticização musical, literária e visual das nossas  vidinhas comuns. Uma vitória moral para quem ambiciona o anel dos Nibelungos mas acaba com o anel de Giges, só que como Midas, transformando tudo em latão.