09 janeiro, 2016

FURAR OU NÃO FURAR

John Florea | Alemanha, 1945

Bem nos podemos esforçar por explicar, com os mais sofisticados dotes retóricos, que somos a favor disto ou daquilo. Mas é nas reacções espontâneas que mais verdadeiramente nos revelamos. Pelo que observei do mundo e por livros que li cujas posições achei sensato adoptar, há muito que me considero política e filosoficamente liberal. Mas eu podia dizer que sou liberal apenas da boca para fora. Há muita gente que defende certos valores mas depois age de um modo completamente diferente. Ora, aconteceu-me ontem uma coisa que, apesar da sua insignificância, me levou a confirmar a minha convicção a esse respeito.

Ainda antes de contar o que me aconteceu, gostaria de dizer que sou habitualmente contido no que diz respeito a asneiras. E se é raro dizê-las mais raro ainda é escrevê-las. Será por isso com o mesmo tipo de constrangimento sentido nos julgamentos quando se trata de reproduzir certos diálogos registados nos processos, que irei aqui invocar algumas pérolas do nosso património vernacular.

Ontem, durante a minha hora de almoço, saí da escola para ir a uma caixa Multibanco, regressando depois pelo passeio junto ao gradeamento da escola até ao portão. É ainda no passeio que, de repente, oiço e vejo, no interior da escola, um fedelho (7º ou 8ºano) a gritar: «Pára com essa merda, caralho, estou farto disso, foda-se», enquanto se afastava do colega contemplado com tão sublimes impropérios. Afastava-se mas não se calava, e quanto mais longe estava do colega mais alto gritava as mesmas palavras, «caralho, foda-se, foda-se, caralho» de um tal modo que se ouvia não apenas numa área considerável da escola como também no seu exterior. De certeza que quem estivesse nas lojas e cafés em frente à escola estava também a levar com toda a diarreia verbal da criança.

Eu, habitualmente tolerante e paciente, passei-me dos carretos e num gesto pouco habitual em mim, gritei para o chamar. Resistiu ao meu primeiro grito mas já não resistiu ao segundo, dirigindo-se então até à grade para falar comigo. Num tom crispado que a mim próprio me surpreendeu, vociferei que não admitia que dissesse aquelas palavras aos gritos numa escola ou em qualquer parte fora da escola onde estivessem outras pessoas. O rapaz, humilde, pediu logo desculpa e dizendo que não voltaria a acontecer. Foi nesse momento que eu, sensibilizado com o arrependimento imediato e sincero do rapaz, disse num tom já bem apaziguador: «Baixinho, podes dizer o que quiseres, as asneiras que quiseres, não podes é dizê-las daquela maneira, havendo pessoas por perto».

Mal acabei de dizer isto, caí em mim: «Meu deus, eu sou professor, educador, formador. A minha obrigação seria dizer-lhe que não deve dizer asneiras, que é feio dizer asneiras, seja alto, seja baixinho, seja em em público, seja em privado». Tal como o rapaz se arrependeu do seu disparate, eu arrependi-me do meu, reconhecendo que não devia ter dito o que disse. Mas como gosto de perseguir um problema enquanto não tenho uma visão clara dele, horas depois, ao regressar a casa, voltei a pensar na minha atitude, para depois concluir que nada fiz que mereça censura.

O que eu fiz com aquele garoto foi tomar uma posição mais política do que moral. Se eu lhe tivesse dito que não deve dizer asneiras, seja quais forem as circunstâncias, eu estaria a intrometer-me na sua vida privada. Nunca aceitarei que fale assim numa sala de aula, numa escola aos gritos ou, fora da escola, se estiver a incomodar outras pessoas. Mas quem sou eu para lhe dizer que não pode falar assim se estiver em casa com um colega a jogar playstation, quando vê o Benfica sofrer um golo ou se entalar o dedo numa porta? Sim: quem sou eu? Qual a minha autoridade enquanto cidadão da mesma polis? A polis é a polis, o domus é o domus. Espaço público é uma coisa, espaço privado uma outra.  Quem advertiu aquela criança não foi pois um moralista que deseja impor certos valores cujo desrespeito não implica uma ameaça para a sociedade mas também não foi um relativista, um anarquista, um anómico, um fanático de um laissez-faire radical. Foi alguém que tomou uma posição política, explicando pedagogicamente que existe um espaço social que é de todos e que dentro desse espaço há que respeitar certas regras. Mas que fora dele, e desde que não se prejudique ninguém, cada um deve viver a sua vida da maneira que mais lhe agrada, tendo todo o direito de o fazer.

A dimensão política não deve ser completamente independente de uma dimensão moral. No fundo, em termos de teoria dos conjuntos, temos uma intersecção. Há coisas da política que nada têm que ver com a moral, há coisas da moral que nada têm que ver com a política, havendo, sim, é verdade, uma área que é comum a ambas, mas que não contempla a situação que acabei de descrever. Neste caso, uma incondicional defesa da liberdade individual. Há coisas que furam os ouvidos de uns mas não furam os ouvidos de outros. Cabe a cada um decidir o que fura ou não os seus, tendo apenas que não se furar ouvidos que não querem ser furados.