14 janeiro, 2016

ESTADO HIPERBOLICAMENTE SOCIAL

August Sander | Criança de classe média, 1925

Estou na biblioteca da minha escola, absorto no meu trabalho. Entretanto, sou interrompido por um garoto que, muito educadamente aliás, me pergunta se tenho uns phones que lhe empreste. Eu, também, educadamente respondo que não. O rapaz agradece e vai para a vida dele, não sei se com phones ou sem phones pois deixei de o ver. Pensei que alguma coisa de importante se deve estar a passar no mundo para um garoto achar normal poder ir ter com um professor de ar sério e com idade para ser seu avô para lhe pedir uns phones emprestados. Ainda quis acreditar que se trataria de um comportamento extemporâneo, explicado por algum défice nas atitudes sociais do moço. Enfim, nada que surpreenda num tempo em que as crianças são tão marcadas por défices. Mas também pode ser apenas mais um caso sintomático de uma tendência social que veio para ficar. 

Eu sou professor do ensino secundário mas como a minha escola faz parte de um agrupamento, nos dois últimos anos fui fazer vigilância de exames de Português e de Matemática a uma escola primária quase ao lado. Em todos eles houve alunos a pedir aos professores vigilantes lenços de papel. À primeira achei estranho mas depois lá me fui habituando a uma prática à qual, percebi, estarem eles há muito habituados. E sendo os exames em Junho, época em que a Renova se deve queixar de uma quebra na venda de lenços de papel, nem quero pensar como seria se fosse em Janeiro. Quando dou testes, tenho sempre alunos a perguntarem-me as horas ou quanto tempo falta para acabar. Alguns já me fizeram levantar da cadeira para ir ao seu lugar para me fazerem a pergunta. Quando dito o sumário tenho sempre a alunos a perguntar «que dia é hoje?». Acontece que no meu tempo moderno, ou pré-pós-moderno, havia um objecto chamado relógio que fazia com que toda a gente soubesse as horas e o dia do mês sem ser necessário estar a incomodar um professor cuja função não é ser relógio ou calendário mas ensinar Filosofia.

Esta é a mesma geração que pode chegar atrasada a todas as aulas porque a escolaridade é obrigatória e ninguém pode chumbar por faltas. É a mesma geração com a qual os pais andam de carro para a frente e para trás como pequenos aristocratas nos seus coches. A mesma geração que, tendo boas ou más notas, não prescinde dos seus gadgets que candidamente vão caindo do céu. A mesma geração que passa almoços e jantares de família absorvidos no seu androids, mandando e recebendo sms para amigos que também estarão em almoços ou jantares de família, sem que ninguém lhes explique que viver em sociedade não é apenas estar mergulhado na satisfação dos seus desejos mais imediatos e que por vezes é mesmo necessário dar atenção à tia velhinha ou ao avô, mesmo que moucos que nem uma porta e contem pela 38ª vez as mesmas histórias de sempre.

Ainda antes de ter sido interrompido pelo rapaz dos phones, já eu estava a ser ininterruptamente interrompido por três fedelhos, duas raparigas e um rapaz, dos seus 12 anos, alegres, felizes e contentes, fazendo um enorme chinfrim numa mesa a cerca de três metros da minha. Resolvi finalmente intervir. Olharam para mim e nada, nem um pedido de desculpa, nem um ligeiro gesto de assentimento com a cabeça, uma subtil expressão de arrependimento no rosto. Mas percebi que me ouviram pois de imediato acalmaram. Mas por pouco tempo, dramaticamente pouco. Habituados que estão à velocidade das percepções e a uma volátil vida mental, lá voltaram de novo aos risinhos estridentes, aos guinchinhos, aos empurrõezinhos. Voltei a advertir e mais alto. A funcionária, que por ali andava, num gesto eternamente repetido, foi educadamente advertir as crianças. A mesma reacção, isto é, a mesma calma, a mesma indiferença perante adultos transparentes que nos pós-modernos circuitos neuronais das crianças devem ter a densidade ontológica de um holograma.

Ora bem, talvez esta geração venha a estar na origem de um novo paradigma social e político. Se a modernidade criou, muito legitimamente de resto, o Estado Social, muito provavelmente iremos num futuro próximo encontrar o Estado Hiperbolicamente Social reclamado por uma geração habituada a pedir phones emprestados, lenços de papel, as horas por não usar relógio, como se pedir de mão estendida por tudo e por nada fosse a coisa mais natural do mundo. Um Estado de tal modo social, tão exageradamente social, tão zeladoramente social que pode ser mesmo a machadada final no estado do Estado Social.