07 janeiro, 2016

CÍRCULOS

Lewis Hine | Power Mechanic Working on Steam Pump, 1920

Toda esta fotografia é circularidade, movimento circular. Começa na pequena peça, circularmente apertada. Continua na enorme peça, também circular, onde se encontra a pequena peça. Prossegue noutros elementos mais secundários e igualmente circulares. Por fim, também a posição do corpo do operário, graças à sua inclinação, provoca um efeito de movimento circular, bem diferente de um linear. Duas leituras deste movimento serão agora possíveis.

Podemos ver aqui o poder do homem a dominar a máquina. Um homem que se inclina para investir a força do seu corpo no movimento da peça. Os seus poderosos músculos dominam a pesada chave que domina o movimento da pequena peça que permite o bom funcionamento da grande máquina. Neste sentido, o homem é o verdadeiro centro da imagem cuja força de gravidade é, por isso, antropocêntrica.

Mas uma outra leitura é possível, neste caso pessimista: a finitude do operário mergulhado numa realidade mecânica que o transcende, o operário como peça entre peças, sendo o seu movimento aquele que lhe é exigido pela máquina para a alimentar. Deixamos assim de ter um deus triunfal mas uma vítima sacrificada ao desejo voraz de uma máquina, um simples feixe cuja pequena e atómica circularidade está mergulhada numa múltipla complexidade de círculos. Neste caso, a centralidade do homem descobre-se ilusória. Pois se é verdade que, espacialmente, ele está no centro, sendo por isso visualmente antropocêntrica, também é verdade que a sua circularidade é uma circularidade no interior de outras circularidades, como os círculos concêntricos que se formam na água quando se atira uma pedra, sendo os mais pequeno sugados pelos maiores.

Também na vida podemos fazer estas duas leituras. Depende do modo como nos considerarmos mais, ou menos livres. Que estamos metidos numa gigantesca máquina cujo movimento interno não depende de nós e cujo sentido nos escapa, isso toda a gente sabe.  Mas tudo depende do modo como cada um se situa face à máquina, pensando se domina a sua vida ou se, pelo contrário, é dominado por ela. Trata-se, porém, de uma falsa questão. Não há volta a dar: ainda que sejamos um círculo dominando círculos mais pequenos, nunca deixaremos de ser um ínfimo círculo dentro de outros círculos maiores que estão dentro de outros ainda maiores. Por isso não adianta ser optimista nem pessimista. O mais certo é nem valer a pena pensar muito nisso. É circular e pronto, pois circular é viver.