28 janeiro, 2016

CHERCHEZ LE JEUNE

Museu da Batalha de Estalinegrado, Volgogrado, 1985

Aula sobre ética kantiana. As conversas são como as cerejas e peço à turma para admitir a possibilidade de instalar um chip no cérebro de todos os recém-nascidos com o objectivo de os tornar incondicionalmente bons ao longo da vida. Com isto, apenas saberão fazer o bem, não por dever mas por inclinação natural da sua natureza, dando assim origem a uma sociedade moralmente perfeita. Seria o fim do mal como característica humana, tal como o conhecemos no passado, no presente e haveremos de conhecer no futuro: desde homicídios, roubos, violações, torturas, guerras até às mesquinhas sacanices que infectam a esmagadora maioria dos seres humanos. Seríamos assim aqueles anjos que, segundo James Madison, nos Federalist Papers, fariam dispensar as habituais e necessárias leis que governam as vidas dos seres humanos.

Depois, claro, o óbvio: perguntar à turma que tal achavam de uma sociedade assim, a ideia do fantástico chip ou de uma hipotética natureza humana adâmica, moralmente perfeita, sem a permanente sombra do mal a pairar sobre as nossas vidas. Excepto uma aluna, e com grande veemência, todos rejeitaram a ideia. Uns, porque uma sociedade sem conflitos e onde «fôssemos todos bonzinhos» seria uma grande pasmaceira. Outros, porque as guerras fazem falta pois a seguir vêm períodos de progresso e prosperidade, outros ainda, porque as guerras são um modo natural de reduzir a população. Como se vê, uma implacável frieza e um calculismo de deixar apreensivas as almas mais sensíveis.

Ouvi com atenção. Depois, perguntei a um aluno que tal a ideia de ser um dos que viria a perder a vida numa guerra. A outro, também animado com a história das guerras, pergunto se gostaria de regressar a casa sem duas pernas e metade da cara desfeita. A uma menina, enfadada com a ideia de uma sociedade sem a existência do mal, propus ser ela uma das felizes contempladas para serem violadas num sábado à noite ou, vivendo no Médio Oriente, ser raptada pelo ISIS para ser escrava sexual. Não querendo bater mais no ceguinho, ainda me ocorreu sugerir a uma outra que, a fim de dar o seu contributo para tornar a sociedade menos entediante, dentro de anos a sua casa venha a ser assaltada, perdendo bens que demorou anos a juntar, incluindo valiosas e antigas jóias da família. Como seria de esperar, ninguém ficou propriamente entusiasmado com o que lhes foi solicitado, ficando assim um bocadinho a pensar, de resto o meu objectivo, como se espera de uma aula de Filosofia. 

Podemos agora dizer que são crianças, ingénuas, que são os 15 anos a falar, pouco habituadas a pensar, que dizem por impulso a primeira coisa que lhes vem à cabeça. Certo. Porém, é neste registo racional e argumentativo que muitos ideólogos, filósofos, revolucionários, doutrinadores, acreditam piamente pôr as suas ideias em prática, ainda que à custa dos maiores ou mais pequenos horrores. Têm a consciência do mal que provocam mas também a consciência de que é o justo preço a pagar para o mundo ser iluminado pelas melhores e mais justas ideias. É mau mas é justo e racional que assim seja, como dizem os ingénuos adolescentes de uma escola de Torres Novas, ainda que de um modo menos sofisticado. O que apenas os separa é os primeiros serem adultos, sábios, iluminados e terem muito poder nas suas mãos. Uma diferença que faz toda a diferença, mas apenas uma diferença. Já de Kant ninguém pode dizer que não tentou ser adulto.